Devemos ter objetivos?

A crença na eficácia dos objetivos

Frequentemente, acreditamos que, para alcançarmos a excelência e todo o nosso potencial, é importante fazermos incidir um foco de luz implacável em direção aos nossos objetivos.

Em geral, dizem-nos também: “Estabelece bons objetivos, se queres obter bons resultados.”

Percebe-se muito bem esta ideia. E não há dúvida de que o método é eficaz quando se trata de alcançar resultados de curto e médio alcance. No trabalho e na vida, em geral. Traçar objetivos destes é crucial para não perdermos o rumo e para sermos eficazes no que fazemos.

Mas nem tudo na vida se mede pela eficácia de conseguirmos alcançar no futuro o que desejamos agora.

Quando os objetivos se tornam limitações

Apesar da evidente utilidade dos objetivos, em certos contextos e circunstâncias, não devemos governar a nossa vida exclusivamente em torno deles, se queremos voar livres no céu da nossa existência.

Muitas vezes, ao definirmos objetivos precisos, tornamo-nos cegos ao que está em volta. Um objetivo é bom porque indica uma direção, mas pode tornar-se um obstáculo, quando nos impede de olhar o horizonte. 

Os objetivos mantêm-nos focados no caminho, mas podem impedir-nos de olhar para o mar. Ou para o céu.

A crença na ficção do “eu”

A nossa dificuldade em lidar com o risco, com a imprevisibilidade e com a incerteza do mundo — seja a do mundo exterior, seja a do nosso próprio mundo interior — pode levar-nos a estabelecer objetivos como forma de controlo e de segurança. 

Esses objetivos funcionam, assim, como tentativas de impor ordem ao que é naturalmente incerto e imprevisível. 

Quando são definidos a partir da necessidade de segurança, os nossos objetivos correm o risco de se tornarem irreais e desalinhados com os interesses do nosso eu por vir. Em vez de nos abrirem possibilidades, como certos sonhos, eles estreitam o nosso caminho, por fazerem parte da teia ficcional de um “eu” imutável que acreditamos existir dentro de nós.

Mas não tenhamos ilusões, porque esse “eu” imutável é apenas isso: uma ficção, um fio narrativo que nos obriga a viver em permanente estado de “ruminação”, para lhe encontrarmos uma coerência e um sentido interno que, na verdade, não tem nem tem de ter.

O mito do progresso linear

Quando estabelecemos objetivos para nós próprios e projetamos o presente no futuro, fazemo-lo porque acreditamos num progresso linear. Mas o progresso linear é uma ilusão quando se trata da natureza humana. 

A mente humana não evolui em linha reta. Evolui com descobertas repentinas, saltos inesperados, regressões aparentes. 

Crescer é muitas vezes desaprender, recuar, recomeçar, reformular.

É por isso que o método “caminhar por objetivos” falha quando está em causa a natureza humana e a nossa própria vida.

Planear com ferramentas que o futuro já não usará

Quando estabelecemos objetivos, fazemo-lo com as ferramentas cognitivas de hoje.

Mas o futuro pode exigir outras ferramentas cognitivas. Além disso, as nossas ferramentas cognitivas de amanhã, se não as aprisionarmos nem amputarmos, serão diferentes das de hoje.

Ao estabelecermos hoje objetivos para amanhã, podemos estar a bloquear esse eu futuro que o eu de hoje ainda não alcança. Ao fazê-lo, podemos estar apenas a proteger um eu que já não nos servirá no futuro.

Os planos, as projeções e os sentidos que damos à nossa própria vida são, assim, frequentemente, os nossos maiores inimigos.

Definição de objetivos e a busca do bem-estar

Muitas vezes, os objetivos projetados, mas não realizados, são o motor de estados depressivos prolongados e da degradação progressiva da autoimagem. 

Na senda desses objetivos, formulados por um “eu” cristalizado e ficcional, podemos mergulhar num estado de letargia profunda porque, sem percebermos, sacrificámos partes vivas de nós mesmos à rigidez dessa narrativa, sufocando desvios e matando possibilidades com o gume implacável desse “eu” imutável: mera narrativa que laboriosamente fabricamos para navegar no mundo.

Explorar em vez de planear

Os momentos de verdadeira grandeza e libertação enquanto seres humanos emergem mais naturalmente quando nos permitimos explorar caminhos inesperados, movidos apenas pelo carvão da curiosidade. 

É possível ser produtivo sem ter um objetivo concreto: quer nas artes, quer nas ciências, quer mesmo na vida pessoal, os melhores momentos nascem muitas vezes de movimentos não programados. Nem tudo o que é fértil ou eficaz precisa de o ser intencionalmente. Claro que os humanos são seres intencionais. Mas não valorizemos demasiado as nossas intenções.

A atenção como bússola 

Em vez de objetivos, podemos pensar em cuidar melhor da nossa atenção

A que damos atenção? 

Em que gastamos o nosso tempo?

A nossa atenção funciona como um regador: aquilo que regamos, cresce.

Ao cultivarmos estados de atenção amplos, abertos, criamos espaço para que algo possa emergir – algo que não estava nos nossos planos.

Uma vida bem disposta (no sentido etimológico original: bem orientada por dentro) pode ser mais fértil do que uma vida bem planeada.

Mais do que fixar objetivos rígidos, pode ser mais produtivo manter uma direção aberta e sensível à mudança e à surpresa.

Para sermos livres é necessário sermos inteiros em cada momento presente

As ideias mais criativas e revolucionárias podem nascer de territórios que inicialmente rejeitaríamos, se nos limitássemos às rotas convencionais desse “eu” manipulado e manipulador que fomos construindo sob o véu da nossa consciência, quantas vezes sem a nossa autorização.

Quer no desempenho profissional quer na nossa vida pessoal, as revelações mais surpreendentes, mais originais e mais libertadoras têm frequentemente origem na nossa capacidade de questionar e explorar. 

Se construirmos com as nossas próprias mãos uma mentalidade exploradora e nos mantivermos abertos a novos começos, conseguiremos mais facilmente escapar às armadilhas do imobilismo, às congeminações que nos enredam e sufocam dentro de nós, ao terreno quantas vezes pantanoso da nossa própria existência, quando nos deixamos viver em permanente veneração dessa entidade que acreditamos ser o nosso sagrado, imutável e permanente eu. Libertemo-nos dele e deixemos que o ser que há dentro de nós se exprima como é, livre e mutável como o vento que passa.

Objetivos, sonhos e liberdade 

A liberdade começa quando nos libertamos desse “eu” imutável e aceitamos o imponderável da vida e de nós mesmos.

Isto não significa que devemos abandonar os nossos sonhos.

Não confundamos ter objetivos com ter sonhos. Esses sonhos de que falo são de outra categoria e podem, em geral, permanecer connosco, como presença inspiradora, mas diáfana e silenciosa, como um perfume.

Ao contrário dos objetivos, que são estruturas fechadas, repressoras, que cristalizam um “eu” ficcional, comprometendo e condicionando o presente e o futuro, esses sonhos, pelo contrário, não degradam o agora nem comprometem o “eu” por vir.

Esses sonhos podem mudar connosco, crescer connosco, desaparecer até por algum tempo e regressar mais tarde, já transformados em meros sorrisos que fazemos ao espelho.

Esses sonhos não nos arrancam do presente, ao contrário, ligam-se a ele. Não nos diminuem, fazem-nos crescer e abrem o caminho em direção a esse “eu” por vir.

São sonhos que não atrapalham a vida. Alimentam-na.

Encontrar sem procurar

Em lugar de procurarmos obsessivamente o sentido da nossa vida, ruminando o passado e perscrutando a incerteza do futuro, obscurecendo frequentemente o esplendor do presente, podemos partir à descoberta do que nos inspira, nos surpreende e nos abre novas possibilidades. 

Os resultados mais transformadores aparecem quando paramos de procurar e começamos a descobrir. Como dizia Pablo Picasso, na língua do país onde viveu grande parte da sua vida: “Je ne cherche pas, je trouve”.

Aqui escrevo ideias, reflexões, fragmentos que um dia darão forma a este livro.

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