
A corrupção não é o que habitualmente gostamos de pensar que ela é, quando estamos à mesa de um café com amigos, a trocar opiniões.
Por vezes, para resolver um problema e encontrar uma resposta satisfatória, temos de mudar a pergunta. Talvez a pergunta certa não seja: “Porque é que os seres humanos se corrompem?”, mas sim: “Que tipo de fenómeno é este que faz com que a corrupção pareça inevitável em certos meios?”
É este ângulo que irei aqui abordar. Sem julgamentos nem condenações. Este texto não serve para condenar nem desculpar ninguém. Serve apenas para lançar para a fogueira instalada no palco das execuções algumas achas que não servirão para fazer arder ninguém, mas apenas para lançar mais luz para aquilo que, afinal, queremos apenas entender.
O que é exatamente corrupção?
Quando ouvimos a palavra corrupção, nos noticiários ou nos jornais, pensamos quase sempre em algo feio, imoral ou até mesmo criminoso. Geralmente, apontamos o nosso dedo acusador, proferimos impropérios, apetece-nos castigar os infratores, porque é feio as pessoas aproveitarem-se dos outros, mentirem, enganarem-nos. Muitas vezes, são políticos com contas secretas, negócios escondidos, favores que fizeram ou que receberam, desvios de valores de um destino para outro destino mais favorável.
Nessas ocasiões, gostamos de exprimir opiniões isentas e impolutas, que traduzem a nobreza do nosso caráter e se opõem ao caráter supostamente corrupto dessas figuras que preenchem os noticiários e os jornais. Associamos a corrupção à maldade e pensamos: Também este? Acreditamos num mundo em que, de um lado, estão os virtuosos (onde nós nos encontramos, é claro) e do outro lado estão os corruptos. De um lado estão os bondosos, como nós, e do outro lado estão os maldosos.
Mas a corrupção, tal como a vemos, ouvimos e lemos todos os dias, nem sempre nasce da maldade.
Geralmente, aquilo que se designa por corrupção é apenas uma forma de adaptação a um meio difícil e hostil. Um mecanismo de sobrevivência, como muitos outros comportamentos humanos. Não estou com isto a desculpar ninguém. Regressaremos mais tarde a esta ideia.
Claro que não estamos aqui a falar de grandes crimes. Estamos a falar daqueles pequenos gestos ou pequenas ações – aceitar um favor, pedir uma ajuda com jeitinho, contornar uma certa regra. Coisas que, isoladas, parecem não fazer mal a ninguém, mas que, somadas, criam uma cultura onde muitos perdem a noção do que está certo e do que está errado.
O lado “natural” da corrupção
Desde Darwin que sabemos que, no mundo natural, a evolução das espécies se faz através da seleção natural. A natureza seleciona os mais fortes, os mais aptos.
Essa seleção é designada “natural” porque, naturalmente, os mais aptos têm mais chances de sobreviver, de prosperar e de se reproduzir. Essa é a lei da natureza. Cada espécie procura desenvolver os mecanismos e as ferramentas mais eficazes para sobreviver, prosperar e reproduzir-se no meio em que vive e se desenvolve.
É crucial sublinhar esta última ideia, porque as funções desses mecanismos que os seres vivos desenvolvem para se adaptarem, sobreviverem e se reproduzirem não são motivadas internamente, isto é, não são características da sua natureza individual. São instrumentos intrínseca e inelutavelmente ligados ao meio específico em que esses seres vivem e se desenvolvem.
No cérebro de certos humanos, a corrupçãozinha não existe. E se existe, não faz mal a ninguém. Bem pelo contrário. É isso que lhes segredam os seus cérebros de quilo e meio (como os nossos), empenhados no instinto dessa luta orgânica, quase-inconsciente, de ser o mais apto no meio onde (sobre)vive.
O cérebro é como o coração ou outro órgão qualquer. Apesar de desempenhar funções de coordenação, não deixa por isso de ser um órgão interno, uma víscera que trabalha “em piloto automático”, em prol do todo que é o organismo. Como tal, a exemplo de outros órgãos, nós não precisamos de dizer-lhe o que fazer. Ele simplesmente fá-lo. Sem pedir licença à nossa bem intencionada consciência. É aliás por isso que 300 milissegundos antes de “querermos” ou “decidirmos” escolher o que quer que seja (um número entre 1 a 10, por exemplo), o nosso cérebro já escolheu. A consciência que temos de ter escolhido algo, como se fosse uma decisão deliberadamente nossa, é uma mera ilusão. Por isso, esqueçamos, pelo menos por agora, essa falsa história de um “eu” todo-poderoso que comanda o que o cérebro faz. A consciência de que fomos nós que determinamos algo que o nosso cérebro executou é apenas uma espécie de subproduto da atividade cerebral. Um pouco como os gases que saem dos tubos de escape dos automóveis, por haver ali um motor de combustão a trabalhar.
Dito isto, que põe em causa o livre-arbítrio de, pelo menos, uma boa parte dos seres humanos, como quem põe o dedo numa ferida escondida que está à vista de todos, podemos, todavia, em geral, agir de acordo com os nossos princípios, não é verdade? Mas quem é que põe lá, na atividade elétrica do nosso cérebro, esses nossos belos princípios? As circunstâncias e a conjuntura em que a nossa vida se desenrolou, é claro (e é verdade que um pouquinho de tudo isso é também fruto da nossa genética).
O que quero extrair deste desvio que acabei por fazer é que quando um cérebro de um mamífero altamente desenvolvido para ser o mais apto e obter sucesso no seu meio é exposto desde cedo a um meio que o faz desenvolver certos mecanismos de sobrevivência, ele desenvolve-os da forma mais eficaz possível. Em certos meios, os gestos e condutas que designamos como corrupçõezinhas não só são comuns, como parecem inevitáveis ou mesmo obrigatórios. E é aí que reside o verdadeiro problema. Não tanto nas pessoas, mas mais no meio e no modo como esse meio se organiza.
Claro que há pessoas que ultrapassam todos os limites. Mas, muitas vezes, as pequenas corrupções surgem em pessoas que apenas tentam adaptar-se, sobreviver, fazer o melhor que conseguem num sistema viciado. Não se trata de uma escolha consciente entre o bem e o mal, mas de um processo adaptativo, que vê o poder como algo a ser conquistado a qualquer custo. Esta perspetiva não justifica a corrupção, mas pode explicar como ela surge de modo relativamente natural e muitas vezes invisível, no lado de dentro das dinâmicas de poder.
De um certo ponto de vista, a corrupção é uma espécie de competência hiperdesenvolvida em alguns seres humanos. É por isso que encontramos com facilidade corruptos inteligentes e em lugares de poder. São os mesmos mecanismos, as mesmas competências, que permitem aceder a ambos os lugares, os que abrem caminho à corrupção e ao poder. Não é por acaso que um certo senhor do séc. XIX, de quem agora não me ocorre o nome, dizia que “o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente”.
A natureza humana, a política e a arte de sobreviver
A natureza humana não está talhada para a ética nem para a perfeição, mas antes para a sobrevivência. Foi assim que conquistámos o mundo. Basta pensar que, ao contrário do que nos dizem os livros de história, os sapiens não se sucederam “naturalmente” aos neandertais. As duas espécies conviveram, rivalizaram e até se cruzaram entre si por muito tempo, e o mais provável é que o que aconteceu depois não abone muito a favor da ética e dos bons costumes desses sapiens de que descendemos. Mas não acusemos agora, tardiamente, os nossos queridos e já bem defuntos ancestrais.
Na política, como em outros meios onde é difícil vencer através do estrito e escrupuloso cumprimento das regras, o que fazem os seres humanos “mais aptos” que “chegam ao topo”? Usam atalhos. Num sistema burocratizado, onde aqueles que fazem tudo “como deve ser” ficam para trás, quem ganha terreno são aqueles que “sabem mexer-se”. E isto sucede não só na política, mas também em muitas outras áreas das sociedades humanas. A corrupção começa por ser (apenas) uma corrupçãozinha, um pequeno atalho.
Uma boa parte dos nossos políticos evoluíram nos “jotinhas” das estruturas partidárias. E uma estrutura partidária é, por definição e por natureza, enviezada. O viés político é natural em quem perfilha uma ideologia. Só não sabemos isto enquanto estamos do lado de dentro dela.
Uma ideologia vivida em estruturas partidárias desde cedo transforma-se frequentemente num estilo de vida em que o jogo estratégico das alianças, das influências e dos pequenos favores são a moeda corrente.
Por essa razão, quem melhor sobrevive nesses meios não é, muitas vezes, quem tem mais integridade ou valor, mas quem tem mais habilidade para navegar as zonas cinzentas dessas alianças estratégicas, para resistir a ataques, para saber fazer, receber e negociar pequenos favores. Em política, aplica-se soberbamente (e cinicamente) o ditado popular: “Uma mão lava a outra, e as duas lavam a cara”.
Ainda que supostamente estas estruturas partidárias devessem ser escolas de pensamento político e de exercício da liberdade intelectual, os jovens políticos acabam por transformar-se em marionetas do sistema, caso queiram subir na estrutura partidária e agradar aos líderes partidários. É claro que nem sempre é assim, nem todos são assim, mas muitas vezes o mérito intelectual e a capacidade de pensar criticamente são facilmente substituídos pela habilidade de seguir diretrizes e alinhar com a corrente dominante.
À medida que se tornam políticos mais experientes, os jovens que crescem nestas estruturas e que aprenderam a ascender na hierarquia partidária através de uma certa espécie de lealdade e truculência ideológica tornam-se especialistas nos jogos de poder partidários e na arte de manobrar ideias que lhes permitirão, mais tarde, obter não o bem comum, mas a realização dos seus interesses e ambições pessoais.
É por isso que, muitas vezes, sentimos que somos governados por indivíduos sem noção do que é a realidade do cidadão comum. Na verdade, eles nunca a viveram. A realidade em que viveram é uma realidade paralela, onde imperam esses jogos de poder e não a necessidade de cumprir uma missão de serviço público.
Os políticos que chegam ao topo são, quase sempre, pessoas muito capazes. Sabem comunicar, argumentar, negociar, planear. Sabem resistir a ataques, encontrar soluções rápidas, lidar com situações difíceis. São seres muito bem preparados para vencer no seu meio, altamente capazes intelectualmente. Essa capacidade é uma forma de inteligência prática hiperdesenvolvida. São pessoas que sabem muito bem o que fazer para sobreviver e para vencer. E essas competências podem ser usadas tanto para o bem como para o mal. Às vezes, sem que o próprio se aperceba, começa a usar os seus talentos para conseguir favores, proteger amigos, conseguir lugares. Pode parecer um contrassenso, mas a linha que separa a competência legítima e o aproveitamento pessoal é por vezes muito ténue. Não é, pois, de estranhar que encontremos nos lugares de poder pessoas que são muito competentes na esfera política e, simultaneamente, muito competentes também a desviar para si próprios ou para os amigos benefícios que deveriam ser canalizados para o bem público. A dado passo, a incomum capacidade em conseguir com eficácia o que se quer transforma-se numa espécie de “automatismo” que deixa de distinguir (ou, ao menos, deixa de ter em conta) o que é, ou não, eticamente aceitável. Os artistas do poder político acabam por adquirir com alguma naturalidade uma lógica do tipo: “se faço tanto e tão bem aos outros e ao meu país, porque não fazer também um pouco por mim mesmo e pelos meus?” A certa altura, rompe-se no seu cérebro a fronteira muitas vezes ténue entre o certo e o errado e acabam por pensar que os favores e benefícios que colhem para proveito pessoal são apenas uma gota no mar de benefícios que a sua “magnânima eficácia” consegue para proveito dos outros.
A trivialização da corrupção
A corrupção, na política e em outras áreas sociais, não é uma questão de tudo ou nada. Ela começa por vezes pequenina, sem que ninguém dê por ela. E cresce depois, insidiosamente, nos corredores do poder de diferentes sistemas de organização das sociedades: ordens e associações profissionais, empresas e institutos públicos, poder local e regional, instituições culturais e artísticas, a Igreja, em desportos como o futebol, nas universidades e nos meios académicos, em geral.
Tudo se faz no relativo silêncio desses corredores (quase sempre atapetados de vermelho) do poder, formal e informal. Sem alarido, sem peso, pé ante pé. Não é por acaso que os comportamentos eticamente reprováveis são muitas vezes embrulhados em diminutivos que, precisamente, lhes diminuem o peso, afastando o fardo insustentável da corrupção.
São as ajudinhas, os favorzinhos e os jeitinhos, só para desenrascar um bocadinho. Para os contactos, dá-se apenas uma palavrinha, um toquezinho. Para agradecer, paga-se apenas um cafezinho ou um almocinho, dá-se uma prendinha ou faz-se um miminho.
Esta abordagem eufemística de certas ações levadas a cabo na política, nos locais de trabalho e em outras estruturas e áreas das sociedades humanas criam uma falsa presunção de inocência, tornando socialmente aceitável e até trivializando o que deveria, na verdade, ser condenável.
É assim que nasce a corrupção silenciosa, a corrupçãozinha em que quase ninguém repara, mas que vai insidiosamente abrindo terreno aos mais aptos, àqueles que aprenderam a usar as “ferramentas da vitória”.
Muitas vezes, nem o próprio corrupto tem a noção clara do que está a fazer. Quando se insurge contra “infundadas” acusações, é bem provável que esteja a ser genuíno, precisamente porque perdeu a noção da fronteira ténue entre o bem e o mal. Noutros casos, o corruptozinho tem perfeita noção da sua esperteza, mas acha que isso é um sinal não de fraqueza moral ou ética, mas precisamente de vitória tática sobre aqueles que, coitados, não sabem viver. Estes não pensam demasiado na ética, não querem saber se o que fazem é bom ou mau. Querem saber, outrossim, se o que fazem é eficaz para a sua sobrevivência naquele contexto, naquele meio.
É o meio que seleciona os comportamentos
A natureza humana não é predeterminada geneticamente, ela traz em si muitos caminhos possíveis: podemos ser solidários ou egoístas, empáticos ou antipáticos, podemos cooperar ou competir, podemos seguir a lei ou tentar contorná-la. O que determina qual desses caminhos seguimos? O nosso virtuosismo genético? Não. Em geral, é o meio.
Se vivermos num meio onde quem joga limpo é castigado, e quem se aproveita é recompensado, a tendência natural do ser humano “normal” é adaptar-se. Não por maldade, mas, mais uma vez, pela lógica interna de um mecanismo complexo cuja finalidade é sobreviver, prosperar e reproduzir-se. Se o habitat que nos coube em sorte é hostil e exige estratégias específicas de sobrevivência, adaptamos o nosso comportamento a esse habitat. Somos seres altamente adaptáveis. A capacidade de adaptação caracteriza melhor o ser humano do que a inteligência. Esta é frequentemente muito limitada, como se percebe observando alguns exemplares, sem sairmos do sistema político, enquanto a primeira é quase ilimitada.
Num meio hostil, sujo, opaco ou injusto, é natural e expectável que os comportamentos humanos se ajustem.
A solução? Nunca, mas nunca, colocarmos o nosso pezinho de cinderela dentro desses meios, sob pena de corrermos o risco de nos transformarmos no que nunca quiséramos ser ou, pelo contrário, de carregarmos toda a vida o fardo insustentável da nossa boa consciência. Temos apenas duas alternativas: ou recusamos entrar num meio desses ou teremos de estar preparados para perder, tranquilamente encostados às colunas da nossa boa consciência, respaldados na consistência do nosso bom caráter.
E não há exceções? É claro que há e todos conhecemos algumas. O problema é precisamente esse: serem exceções, e não a regra.
A política é apenas um exemplo
A política é um dos meios onde estas dinâmicas são mais visíveis. Não porque os políticos sejam piores do que os outros humanos, mas porque estão num sistema altamente competitivo, exigente e mediático. O palco onde atuam está inundado de holofotes. As luzes da ribalta não lhes dão paz nem tréguas.
No caso particular dos políticos, muitos começarão com boas intenções. É claro que sim. Mas o meio em que operam (os partidos, as campanhas, as eleições, os ciclos de poder muito curtos, as redes sociais, a TV e a comunicação social sensacionalista) puxa-os para uma lógica onde a eficácia importa mais do que a ética.
É fácil olhar em volta e reparar que certos politicozinhos têm quase sempre a sua empresazita, ou duas, ou até mais. E se não são eles que as têm, são os filhos, as esposas, os irmãos, os primos.
O problema está menos nas pessoas e mais no tipo de sistema em que essas pessoas vivem. Não esqueçamos que a competência é uma capacidade ampla e, muitas vezes, indiferente aos fins: é tanto a aptidão para resolver problemas, como para manipular contextos.
O que pode ser feito? Mudar o meio e os seus sistemas
Se queremos reduzir a corrupção, mais do que condenar ou prender pessoas, temos de mudar o meio. Temos de criar ambientes onde o comportamento ético seja recompensado, e não penalizado. Temos de criar sistemas mais transparentes, onde seja fácil ver quem faz o quê e porquê. Temos de valorizar a ética nas pequenas decisões. Temos de promover uma cultura de integridade, onde os atalhos deixem de ser vistos como “espertezas” e passem a ser vistos como o que são: desvios e trapaceirices.
No caso da política: a democracia, como é evidente, está doente. E muito. Na Europa e no mundo. Do modo como a conhecemos hoje, ela coloca no poder, “democraticamente” eleitos, populistas e outros inomináveis istas. A democracia não está apenas doente, ela precisa já de cuidados intensivos. Quem a tratará e porá fim à sua agonia? Uma guerra mundial? Uma catástrofe nuclear ou ecológica?
A democracia, idealmente, é um sistema que deveria selecionar os melhores representantes do povo, capazes de o servir com integridade e visão de futuro. Porém, o modo como a democracia funciona hoje (vergada às redes socais, aos ciclos eleitorais curtos, à comunicação instantânea, à hiperexposição mediática, à lógica da popularidade e das “perceções”) transformou-a num sistema-marioneta nas mãos de alguns políticos sem escrúpulos. E todos sabemos quem são. É neste sentido que podemos dizer que o sistema está “doente”. Não porque falhe nos seus princípios fundadores, mas porque os mecanismos que a fazem funcionar deixaram de valorizar o essencial (a integridade, a reflexão, a prudência, o mérito e a excelência), para recompensar o que é popular, superficial, rápido, eficaz, teatral. A sobrevivência política passou a depender mais da gestão de percepções do que da substância das decisões.
O erro crasso de atacarmos os indivíduos e não o sistema
Face ao que disse anteriormente, percebe-se melhor agora que o julgamento moral na praça pública dos indivíduos corruptos se revela insuficiente e até contraproducente. Uma falácia ou um tiro no pé. Acusar um político de corrupção ou de falta de ética pode ser necessário em certas circunstâncias, é claro, mas não resolve o problema, na sua raiz.
Na verdade, funciona mais como um gesto de catarse pública: atacamos o corrupto para mantermos a ilusão de que o sistema está bem e recomenda-se e para pensarmos que o problema está na exceção, no desvio individual.
Mas, uma vez que continuamos a viver num meio, num sistema, que continua a premiar os mesmos comportamentos e estratégias, então hão de surgir novos políticos, com novas caras, mas com os mesmos mecanismos adaptativos. E o ciclo repetir-se-á. Com outras moscas.
Não é por acaso que se diz que os políticos devem ser mudados regularmente, como as fraldas dos bebés, e pelos mesmos motivos.
Conclusão: a corrupção é humana, mas é o meio que determina o que os humanos fazem. Ou não será?
A corrupção existe não porque há humanos maus por natureza, que se opõem aos humanos bons. A corrupção existe porque é dificil pôr fim ao meio (aos meios) onde ela se desenvolve.
Enquanto não formos capazes de pôr fim aos meios que propiciam a sua propagação, ela prosperará.
Não é bem assim, dirão alguns. Há pessoas decentes, e essas vencerão. Mas isso não será assim por uma simples razão: nem todos os humanos têm o seu sistema imunitário em dia. Porque o meio (a educação, a cultura, as experiências pessoais e outros fatores) não lho deram. O crescimento interior de cada indivíduo, que permite a alguns saber o que é eticamente reprovável, não é uma aquisição ou um saber facilmente transmissível. É realizado solitariamente, no silêncio da caixa craniana de cada um de nós.
Assim, exige-se, cada vez mais e desde cedo, uma educação direcionada para a consciência cívica crítica. Para que todos saibam mais facilmente, quando forem adultos com responsabilidades, identificar estes mecanismos e resistir-lhes.
Por isso, quando perguntamos “porque existe corrupção?”, a resposta não está nas pessoas. Está nos sistemas, nas estruturas, nos hábitos e nas recompensas invisíveis. Está no meio que nós próprios criámos. “Mea culpa, mea maxima culpa”.

