Porque celebramos o Natal?

Ana nunca compreendeu o Natal.

Enquanto a cidade se enchia de luzes, ela esvaziava-se de sentidos, como se tudo aquilo não pertencesse ao seu mundo. Porquê celebrar algo tão distante e abstrato, um nascimento tão incerto e longínquo de alguém que nem sabia bem se tinha existido?

Naquele ano, porém, algo parecia diferente. Ana sentia um peso insuportável, como se o mundo tivesse parado e ela estivesse presa dentro de si, incapaz de seguir em qualquer direção.

Naquele dia 25 de dezembro, depois da noite de consoada, antes mesmo de o sol nascer, levantou-se resoluta. Como quem atende a um chamamento urgente, vestiu-se rapidamente e saiu de casa sem rumo, guiada apenas pela necessidade de encontrar algo, embora não soubesse bem o quê.

Caminhou até um pequeno bosque no limite da cidade, onde as árvores despidas pelo vento e vestidas pela neve projetavam sombras longas e imóveis. Parou numa pequena clareira, o único lugar onde àquela hora incidia já uma breve nesga de luz. Sentou-se no chão húmido, escutando o silêncio daquela madrugada invulgar, deixando que a primeira luz do alvorecer incidisse, tímida, no seu rosto.

Enquanto sentia a luz ainda fria daquela manhã que começava a nascer, pensou no que o dia de Natal representava para muitos: o nascimento de Jesus. Para ela, que não acreditava em milagres ou em promessas divinas, aquele simbolismo nunca fizera muito sentido. E, no entanto, naquela manhã, sentiu que algo dentro de si começava a mudar.

Fechou os olhos e sentiu por alguns instantes o ar frio entrar nos pulmões. Algures, dentro dela, uma ideia começava a nascer, ainda frágil, mas luminosa: E se o Natal não fosse apenas a celebração do nascimento de Jesus? E se fosse a celebração do nascimento de algo novo dentro de cada um de nós?

Ana compreendeu, de repente, com toda a clareza, sentada sozinha na clareira do bosque, o que era afinal esse peso que há tanto tempo a sufocava: o fardo insuportável de um “eu” imutável, uma prisão invisível em que se sentia para sempre encerrada. 

Naquela manhã fria, pôde finalmente perceber que talvez o dia de Natal não servisse apenas para evocar o nascimento de alguém, de carne e osso, num tempo longínquo e num lugar concreto.

Talvez o Natal, que significa nascimento, fosse também um convite para outros nascimentos, um desafio para que cada um de nós possa libertar-se de si mesmo e regressar a um novo começo, ao nascimento de um novo ser gerado pelo nosso próprio esforço, resgatado de nós pelas nossas próprias mãos.

Naquele instante, sentiu um movimento mágico e inexplicável dentro de si, como se algo há muito adormecido estivesse finalmente a despontar. Cerrou os olhos por instantes. Não era apenas uma esperança. Era uma certeza: podia nascer de novo, ali mesmo, no meio daquele bosque silencioso e frio. Não precisava esperar mais. Bastava apenas começar.

Abriu os olhos e viu a luz do sol finalmente romper, lentamente, o horizonte. As sombras do bosque recuaram e um mundo novo, finalmente iluminado, parecia nascer outra vez. Ana levantou-se e tocou com as suas mãos ainda trémulas a árvore mais próxima. Ao tocá-la, um pouco da casca áspera e dura da árvore soltou-se do tronco e caiu ao chão. Ana sorriu, porque percebeu que ela própria era como aquela árvore: um pouco seca e áspera, um pouco dura e frágil, mas viva e capaz de brotar de novo de dentro de si.

Enquanto voltava para casa, uma ideia muito clara se foi instalando dentro dela. O Natal afinal não era só para os crentes, para os que celebravam o nascimento de Jesus. Era para todos. O Natal celebra, afinal, a possibilidade de nascermos de novo dentro de nós.

E assim, pela primeira vez, Ana sentiu que o Natal era também seu.

(Todas as imagens foram geradas com recurso a inteligência artificial)

Deixe um comentário