
Inteligência artificial e essência humana
Se o nosso envolvimento emocional e a nossa satisfação com a inteligência artificial e os algoritmos igualar ou superar o nível de envolvimento emocional e de satisfação que experienciamos com os seres humanos, isso irá colocar-nos perante a questão de percebermos qual é a natureza das emoções e das relações humanas, de saber qual é afinal a essência da nossa humanidade.
A sedução das redes de comunicação digitais e da inteligência artificial põe em causa a humanidade das nossas emoções, que parece poder ser estimulada e seduzida tanto por seres humanos quanto por “máquinas”. Isto leva a crer que a capacidade de os humanos se ligarem a outros humanos pode estar mais ancorada no efeito dessa ligação do que propriamente na sua substância ou na sua origem.
A facilidade é mais atrativa que a complexidade
Este é um tema que já explorei em outros textos. Evitamos a complexidade e procuramos a facilidade. A sedução pelas interações com base em inteligência artificial parece apontar para um facto cada vez mais evidente: a humanidade busca cada vez mais as interações simplificadas do que as autênticas, rosto a rosto, porque estas últimas arrastam consigo o incómodo da imprevisibilidade e da imperfeição humanas. Quantos de nós têm paciência e tempo para ouvir realmente o outro, demorada e pacientemente?
A “máquina”, a inteligência artificial, ouve-nos pacientemente, durante o tempo que quisermos, não se importando de ser interrompida nem contrariada. A “máquina” aprende a conhecer-nos e pode dar-nos respostas que vão ao encontro do que queremos. Pode explicar de muitas formas diferentes a mesma ideia, até que a nossa curiosidade fique satisfeita. E nunca, mas nunca, nos faz sentir o fardo da nossa ignorância.
A atração por dispositivos, algoritmos e “máquinas” capazes de nos satisfazer e de preencher as nossas necessidades intelectuais e emocionais, ou até mesmo capazes de simular intimidade, reflete a nossa (quero dizer: das sociedades modernas) tendência para a superficialidade e a conveniência. Talvez, no fundo, esta tendência diga mais sobre o que desejamos evitar nas relações humanas (as falhas, os conflitos, a frustração) do que sobre aquilo que queremos nelas encontrar.
Se a inteligência artificial ganhar, temos pena. Talvez tenhamos o que merecemos
Se a inteligência artificial conseguir um dia substituir o contacto humano, talvez isso seja apenas o reflexo natural de uma sociedade que valoriza cada vez menos a complexidade do outro e do mundo, que procura cada vez mais a informação fácil e as narrativas que lhe ofereçam apenas as partes mais imediatamente gratificantes da interação com o outro e com o mundo.
O que este cenário nos diria é que a necessidade de os seres humanos estabelecerem uma ligação genuína com os outros poderá ser, afinal, mais superficial do que aquilo que gostamos de admitir.
Onde está a essência da natureza humana?
É claro que esta reflexão nos coloca perante uma “verdade” inquietante: talvez o que entendemos como “essência humana” seja menos uma propriedade exclusivamente nossa e mais uma construção. Embora única e exclusiva dos seres humanos, como resultado da evolução biológica da nossa espécie, talvez um dia ela possa ser replicada em “máquinas”, de modo a suscitar em nós as mesmas emoções. Talvez o que designamos por essência humana seja mais do domínio do “discurso” do que do domínio de uma qualquer propriedade misteriosa dos seres humanos.
O “problema” da inteligência artificial é exatamente este: a partir do momento em que conquistar (já conquistou?) e dominar o nosso “sistema operativo”, que é a linguagem, corremos o risco de ela pode fazer de nós, humanos, o que quiser. Em todos os aspetos da nossa vida e da nossa sociedade.
E se isso vier a acontecer? É dramático? Depende de nós, aqui e agora.
É bom pensarmos nesta questão não tanto como um problema, mas mais como um desafio que não vamos, de todo, conseguir evitar: se, por um lado, a inteligência artificial e as tecnologias relacionadas com a comunicação digital podem pôr em causa a autenticidade das relações humanas, por outro lado podem aprofundar a compreensão de nós mesmos e disso que designamos por humanidade, podem fazer-nos repensar o nosso lugar no mundo e as nossas relações com os outros. É possível que isso demore algum tempo e que haja algumas convulsões sociais, até que a humanidade, vergada pela inteligência artificial, se contemple horrorizada ao espelho. Muitas vezes, é preciso descer ao inferno para vislumbrar o céu.


