
A partir do século XV, e pelo menos até ao século XVIII, dezenas de milhares de mulheres foram executadas em resultado de condenações injustas, acusadas de atos de bruxaria, de práticas perversas e diabólicas e de poderes prodigiosos e sobrenaturais que obviamente não tinham.
Muitas eram acusadas, por exemplo, de terem poderes sobrenaturais e maléficos sobre os órgãos genitais masculinos.
Um livro em que estes poderes eram descritos e que teve, por essa altura, um êxito estrondoso foi o Malleus Maleficarum (O Martelo das Bruxas), escrito por dois inquisidores dominicanos, Heinrich Kramer e Jakob Sprenger, em 1487, pouco tempo depois da invenção da imprensa, por Gutenberg.
O êxito deste livro aconteceu pela mesma altura em que começou a disseminar-se amplamente aquele que viria a ser o maior êxito editorial de sempre, A Bíblia de Gutenberg, que mais tarde teve muitas versões e traduções e o estrondoso êxito que todos conhecemos, até aos nossos dias.
Claro que a invenção da imprensa trouxe progresso à humanidade, ao propagar novas ideias e permitir que elas chegassem em muito menos tempo a muitos mais lugares. Mas esta invenção permitiu também que as ficções, as histórias falsas, as crendices, o medo e as teorias da conspiração se espalhassem com uma eficácia sem precedentes.
No livro que acima referi, daqueles dois inquisidores, explicava-se minuciosamente como detetar atos de bruxaria, descreviam-se práticas de feitiçaria e sugeriam-se métodos de investigação e punição. Era verdadeiramente um manual de caça às bruxas.
Nesse livro, que agora nos pode parecer ridículo, mas que era muito sério, naquela época, explicava-se minuciosamente que as bruxas tinham o poder de roubar, fazer crescer ou fazer mingar os órgãos genitais dos homens.
Em algumas comunidades, as bruxas eram vistas como as culpadas pela disfunção erétil dos homens, ou impotência sexual, sendo por isso condenadas por serem responsáveis pelo facto de alguns homens não cumprirem devidamente as suas funções.
À luz da psicologia da época, um homem que tivesse disfunção erétil podia “na boa” culpar uma bruxa por essa sua condição, alegando que ela tinha “roubado” a virilidade do seu órgão.
Isto diz muito quer sobre a antiguidade da mitologia que sustenta uma certa masculinidade que ainda hoje persiste, mas também diz muito sobre a facilidade com que a ignorância assimila histórias absurdas mas simples, que “explicam” rapidamente um problema e permitem escapar à verdadeira causa (neste caso, o medo, a ansiedade e a insegurança que podem instalar-se na sexualidade masculina) ajudando os mais frágeis a ilibar-se daquilo que julgam ser as suas próprias responsabilidades ou culpas, recorrendo a mitos, a superstições, a teorias da conspiração.
Claro que as acusações contra as alegadas bruxas eram infundadas e baseadas sobretudo em rivalidades, invejas e rumores falsos. A perseguição daquelas mulheres, geralmente pouco instruídas, vulneráveis e pobres, sem grandes possibilidades de se defenderem, aconteceu sobretudo depois da invenção da imprensa, porque foi esta nova tecnologia, inventada por Gutenberg, que ajudou a difundir amplamente estas superstições e a consolidar a crença de que as bruxas eram uma ameaça real. Com isso, passou de rumor de aldeia para alarido global e mesmo para assunto de Estado, percorrendo o mundo de lés a lés, um pouco como agora acontece com as fake news. É claro que a culpa não é da invenção da imprensa, “em si”, mas do uso que se lhe dá: uma faca tanto pode servir para matar, como para salvar uma vida numa cirurgia.
A culpa não é, dizia, da imprensa, mas a verdade é que foi a invenção desta tecnologia que tornou possível disseminar rapidamente e amplamente estas fake news e teorias da conspiração.
Antes da invenção da imprensa, durante a (baixa) Idade Média, já existia, evidentemente, o fenómeno de caça às bruxas, mas era muito pontual, muito localizado, pouco disseminado.
Depois da invenção da imprensa, as pessoas liam e devoravam estas histórias de bruxaria muito avidamente e muito mais do que liam qualquer outro livro.
Mas não se pense que a perseguição e caça às bruxas era feita apenas pelo povo inculto e ignorante.
Não. Essa perseguição tornou-se mesmo um objetivo governamental. O tal assunto de Estado de que falava acima. De tal modo que, em 1563, na Inglaterra, foi promulgado um decreto que legalizou a perseguição e condenação das bruxas (o Witchcraft Act). Também na Escócia, em 1590, num processo governamental que ficou conhecido como as North Berwick Witch Trials, resultaram várias execuções.
Claro que, por essa altura, depois da invenção da imprensa por Gutenberg, foram também publicados e difundidos importantes livros de ciência. É, aliás, sobejamente conhecido que a invenção da imprensa permitiu uma mais rápida disseminação do conhecimento científico em todo o mundo. Mas não é verdade, ao contrário do que possa parecer e se diz frequentemente, que tenha sido essa invenção a dar o grande grande impulso na ciência e no conhecimento humanos.
A verdade científica é muito complexa e difícil de entender e digerir. Os livros de ciência eram (e são) lidos por uma fatia muito reduzida da população.
Como as pessoas eram pouco instruídas e as histórias de bruxas eram muito mais fáceis de entender, os livros sobre bruxarias tinham muito mais impacto e êxito, eram muito mais lidos do que qualquer livro erudito sobre ciência, que expusesse e explicasse as importantes (mas sempre complexas e aborrecidas) verdades científicas.
Em suma, a difusão da informação que a invenção da imprensa permitiu não era garantia de evolução do conhecimento. Longe disso.
Os mitos e teorias da conspiração em torno das bruxarias e outras histórias e ficções humanas tiveram mais êxito porque o cérebro humano (a mente humana, se quisermos) tem uma natureza peculiar. Como já referi antes, em outros textos, o cérebro humano está preparado para ser tão“económico” quanto possível, para seguir a lei do menor esforço. Por isso, tende a simplificar a realidade e a procurar as respostas mais simples para as interrogações que o apoquentam, criando padrões onde eles não existem, incluindo na perceção visual, nas designadas ilusões de ótica, como também mostrei noutro texto. A criação de padrões não é mais do a redução da complexidade do mundo a uma expressão mais simples e regular, seguindo a lei do menor esforço.
Todos os sistemas físicos no mundo seguem esta lei do menor esforço (ou princípio da economia de energia). O nosso cérebro não é exceção. Um curso de água percorre o caminho que oferece menor resistência. A lei de Ohm diz-nos que a corrente elétrica segue o caminho de menor resistência num circuito. As aves aproveitam as correntes de ar ascendente para se manterem no ar com o menor esforço possível. Até os planetas gravitam em torno do Sol seguindo a trajetória que requer o menor gasto de energia (sem colidirem com ele nem saírem fora da sua órbita).
Repito: o nosso cérebro não é exceção. A verdade é complexa. Exige esforço. A ficção é muito mais simples. As narrativas têm um princípio, um meio e um fim. A dúvida e a incerteza permanentes que a busca da verdade acarreta são muito dispendiosas. A nossa mente, que segue a lei do menor esforço, tende para a ficção e para a simplificação cognitiva. Um exemplo: Acreditar que existe um grupo de pessoas, uma organização ou uma seita secreta que controla alguns fenómenos ou eventos no mundo é muito mais confortável cognitivamente e emocionalmente do que compreender as complexas redes das interações geopolíticas mundiais.
As histórias simples, em que existe um vilão que é responsável por todos os males que acontecem no mundo, são muito mais atrativas para o nosso cérebro, menos dispendiosas energeticamente. São cognitivamente mais fáceis de digerir.
As simplificações, as histórias, as narrativas e as ficções em geral são um refúgio para o esforço mental.
Como já referi em outros textos, o nosso cérebro, porque tem de gerir quantidades incríveis de informação, está preparado para controlar a energia disponível de forma muito espartana, recorrendo a vários mecanismos para esse efeito: a generalização, o preconceito, a simplificação, entre outros.
Para concluir.
A invenção da imprensa permitiu elevar a um outro patamar os rumores, as fake news e teorias da conspiração que circulavam apenas pelas aldeias.
A rádio e a TV, primeiro, e mais recentemente a internet e as redes sociais apenas ampliaram para um nível muito alto os efeitos da invenção da imprensa, disseminando e amplificando fake news e teorias da conspiração a um nível tão global quanto perigoso.
A falta de confiança, o ceticismo e o desconhecimento em relação à ciência é o terreno mais fértil para o crescimento de crendices e teorias da conspiração, que oferecem um sentido imediato e explicações fáceis, simples e sedutoras para problemas que são muito complexos.
É por isso que a educação para a complexidade (e já agora para a capacidade de sofrer e perseverar estoicamente na procura da verdade) pode ser o melhor antídoto para o declínio do mundo e provavelmente a única solução para conseguirmos construir uma humanidade melhor.
Nota: Este texto foi parcialmente inspirado em palestras e entrevistas de Yuval Noah Harari, escritor e pensador israelita e também professor de História na Universidade de Jerusalém. Escrevi-o em jeito de celebração da publicação de um livro seu, que acaba de ser lançado também em Portugal: Nexus. Qualquer asneira ou imprecisão neste texto deve-se exclusivamente a mim e não àquele autor.
