
Desta vez, tendo em conta que este texto anda a ser ruminado há muito tempo e acabou por ficar muito extenso, fiz um resumo das ideias-chave de tudo o que escrevi. Por isso, para quem goste de textos mais curtos, aqui fica ele.
Resumo
A atividade a que chamamos pensar, no sentido mais consciente e introspetivo, é apenas uma fração da vasta gama de atividades que o nosso cérebro realiza, um microcosmo dentro de um universo interno muito maior e mais significativo.
O nosso cérebro, ao operar na escuridão silenciosa da caixa craniana, processa uma quantidade incomensurável de dados sensoriais, transformando-os em sinais eletroquímicos que podemos compreender. Este processo de tradução e interpretação dos dados sensoriais que o mundo oferece é incrivelmente complexo e energeticamente dispendioso, mas ocorre sem a nossa intervenção consciente.
As neurociências têm revelado de forma muito clara que não há compartimentação rígida de funções no nosso cérebro; ao invés disso, há uma interconexão dinâmica entre áreas que lidam com funções cognitivas, emocionais e fisiológicas. Essa interligação sublinha a complexidade de sermos humanos, mostrando que a nossa racionalidade, as nossas emoções e as nossas funções corporais estão profundamente interligadas. Mostra também, a quem quiser ver, que essa entidade a que chamamos “eu”, “espírito” ou “alma humana” reside também algures nessa intrincada estrutura de processos a que chamamos pensar.
A construção da nossa identidade consciente, essa narrativa contínua de um “eu” que acreditamos ser o que nos define, é uma ferramenta útil para navegarmos no mundo, mas é, em última análise, apenas uma ficção necessária, que nos ajuda a gerir a vida quotidiana. No entanto, é crucial reconhecer que ela é apenas essa ficção necessária, mas não a essência do que somos.
Grande parte do pensamento que molda a nossa existência e que nos define verdadeiramente enquanto seres humanos ocorre fora do campo da nossa consciência.
Dito de forma ainda mais breve: a pequena zona iluminada do nosso cérebro a que chamamos consciência e que nos permite elaborar ficções e ilusões como a de um “eu” pronto a navegar no mundo é apenas uma pequena fração do vasto processo cognitivo que nos define.
Há processos mentais e corporais complexos que operam nas profundezas do nosso ser e que governam funções vitais, emoções e respostas comportamentais que são mais cruciais para a nossa sobrevivência e bem-estar do que a nossa narrativa consciente. Estes processos inconscientes, embora ocultos, são o verdadeiro motor do nosso ser. São eles que sustentam a complexidade da nossa interação com o mundo.
Reconhecer esta realidade ajuda-nos a relativizar e a pôr em perspetiva a importância que atribuímos à construção ficcional da nossa identidade consciente. Ajuda-nos também a ser mais humildes quanto ao nosso lugar no mundo. A importância deste reconhecimento deve-se também ao facto de o “eu” consciente poder ser por vezes uma fonte de angústia e perturbação, precisamente porque se limita ao que consegue perceber e controlar, ignorando a sua natureza ficcional e a imensidão do pensamento inconsciente que lhe escapa e que nos move enquanto seres humanos.
A verdadeira compreensão de nós mesmos e do mundo pode assim, paradoxalmente, ser encontrada no reconhecimento da natureza ficcional e das limitações da nossa consciência.
Ao refletirmos sobre o papel do pensamento consciente na construção do “eu” e ao relativizarmos essa construção perante a vastidão de processos mentais que nos define enquanto indivíduos e enquanto espécie ficamos mais bem preparados para aceitar que a verdadeira majestade da cognição humana reside naquilo que transcende a nossa percepção consciente. Esta reflexão também nos liberta para viver de maneira mais plena o presente.
Este reconhecimento pode libertar-nos ainda das limitações da nossa identidade fictícia, permitindo-nos abraçar humildemente a complexidade intrínseca da nossa existência. Em última análise, compreender esta verdade pode ser um passo essencial para uma vida mais equilibrada e uma visão mais profunda de nós mesmos e do nosso lugar no mundo, em harmonia mais autêntica com a nossa própria natureza.
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Na parte 1 deste tópico referi-me ao facto de a atividade mental consciente, que normalmente designamos por pensar, não ser a mais importante atividade que o nosso cérebro realiza: desde a atividade de pensar no que vamos fazer logo ao jantar, até à atividade de pensar na nossa vida, passada e futura, ou até mesmo essa atividade relativamente inócua de refletirmos sobre nós próprios, sobre o lugar que ocupamos no mundo, no gigantesco palco da vida.
O nosso cérebro é de longe a estrutura mais complexa que se conhece à face da Terra e ocupa-se de tarefas bem mais importantes, exigentes e complexas do que aquelas que habitualmente associamos ao ato de “pensar”, as quais, como já vimos, são apenas aquelas de que a nossa consciência se dá conta. Esta foi uma ideia que ficou patente nessa parte 1, mas também em outros tópicos relacionados com este, em que está em causa a noção de pensar e, em especial, a noção de identidade. Vale a pena recuperar aqui as ideias centrais desta perspetiva.
Frequentemente, fazemos mau uso da nossa energia mental
A atividade cerebral consciente, de que nos damos conta, é apenas uma pequenina zona iluminada do nosso cérebro a que conseguimos ter acesso, fruto desse mecanismo evolutivo que a nossa espécie adquiriu e a que damos o nome genérico de consciência. Mas não é nada justo nem rigoroso afirmar que esta atividade consciente do cérebro, por ser a única a que temos acesso, é a mais importante. Nem é sensato acreditar que é aí, nessa pequena fração da atividade cerebral, que vamos encontrar a chave das portas que nos abrirão o caminho para um melhor conhecimento do mundo e de nós mesmos. Fazê-lo é como procurar junto a um lampião a chave que perdemos bem longe dele, pensando que (por nesse local existir mais luz) podemos mais facilmente aí encontrá-la.
A energia que o nosso cérebro gasta com uma boa parte dos nossos pensamentos, em especial os pensamentos que não escolhemos, que são como que a voz de uma narrativa interior, uma ficção em que nos vemos mergulhados e de onde, muitas vezes, não conseguimos sair, é frequentemente uma energia mal gasta.
Se virmos bem, perdemos muito tempo nesta atividade, quantas vezes, inútil. Pior ainda: estes pensamentos não só são inúteis, como trazem sofrimento (ideia que defendi melhor no texto “Porque sofremos?”). Gastamos demasiado tempo a pensar no significado da nossa vida, a ruminar os significados do passado e a conjeturar ansiosamente o futuro.
Buscamos o sentido das coisas representando um papel que o nosso eu sorrateiramente nos preparou e saltamos para o palco da vida imaginando-nos protagonistas de uma gigantesca peça que se desenrola no teatro do mundo.
Suspensos entre as malhas labirínticas de um passado que já não volta e os caminhos imaginados de um futuro que ainda não é, os nossos pensamentos roubam-nos muitas vezes os melhores momentos de um presente que está aqui, resplandecente, diante de nós, para ser vivido já.
Esta não é, obviamente, uma visão que critica ou condena a atividade de refletirmos sobre nós e o mundo. É apenas um alerta para a possibilidade, paradoxal mas real, de podermos ser dominados por um ser ficcional que temos o poder de construir e que vive dentro de nós, o qual, frequentemente, não nos deixa viver a realidade de um presente em que podemos ser verdadeiramente nós.
É claro que temos de pensar. Temos de pensar para executar tarefas cruciais não apenas para a nossa sobrevivência, mas também para o nosso bem-estar. Pensamos, sobretudo, para dar um sentido à nossa vida, para resolver problemas e para tomar decisões. Pensamos também para compreender e interpretar o mundo, para aprender e para comunicar.
Somos seres inteligentes. Não pensamos por acaso. Pensamos porque queremos chegar a algum lado. Pensamos para compreender. E queremos compreender, porque queremos agir.
Se observarmos mais de perto, a maior parte da nossa atividade mental é de planeamento. Toda a nossa vida é um longo e meticuloso planeamento, a curto, a médio e a longo prazo: com base nas nossas experiências e memórias do passado (passe o pleonasmo) e tendo em conta as nossas expectativas e os nossos interesses para o futuro, planeamos meticulosamente as nossas ações.
E, se quisermos simplificar ainda mais e reduzir toda a nossa vida à mais simples expressão, esse planeamento que fazemos, enquanto seres vivos, como já disse noutro texto, pode ser resumido em dois únicos objetivos: 1. por um lado, procurar a máxima satisfação, o máximo prazer; 2. por outro lado, fugir ou evitar a dor e o sofrimento (esta é a ideia que explorei melhor no texto “Qual é o sentido da vida?”).
Regressemos agora à questão inicial que originou a terceira parte deste texto. Se as tarefas e atividades que estamos habituados a designar por pensar (por termos consciência delas) não são as mais importantes que o nosso cérebro realiza, nem as que gastam mais energia, quais são, afinal, essas outras atividades ou tarefas em que o nosso cérebro gasta mais energia?
Antes de partirmos diretamente para a resposta a esta pergunta, é imprescindível enquadrá-la.
As ciências cognitivas cresceram exponencialmente
É praticamente impossível acompanhar o ritmo avassalador das descobertas científicas nos últimos anos, na área das neurociências, ou ciências da cognição, como preferirmos. De um certo ponto de vista, não é exagerado afirmar que aquilo que se descobriu sobre o funcionamento do cérebro nos últimos 20 anos é mais do que aquilo que se descobriu nos últimos 20 séculos.
Há boas razões para que isto tenha sucedido. Não é porque os cientistas tenham ficado mais inteligentes, mas antes porque nos últimos anos a informática acelerou tudo: as biotecnologias em conjunto com as tecnologias da informação e o poder dos supercomputadores permitiram não só aceder ao nosso cérebro, mas também ler e processar a colossal quantidade de dados que nos revela o que lá se passa.
Há pouco mais de 100 anos, no início do século XX, o que se sabia sobre o cérebro era pouco mais do que conjeturas de psicólogos e filósofos com muito tempo livre para especular. Hoje, é possível acompanhar a atividade cerebral em tempo real, em direto, digamos assim, através de uma combinação de técnicas que permitem observar a atividade elétrica encefálica, medir o fluxo de sangue nos milimétricos vasos sanguíneos das diferentes zonas do cérebro e quantificar os processos químicos que ocorrem quando realizamos diferentes tarefas mentais. Embora apenas seja possível aceder à atividade eletroquímica, os dados que assim obtemos, juntamente com os estados mentais que lhes estão associados e as reações e os comportamentos revelados pelos sujeitos em estudo, permitem conhecer melhor o que pensamos e como pensamos de um modo que julgáramos antes ser impossível.
Até há poucas décadas, mesmo que conseguíssemos extrair do nosso cérebro essa mesma quantidade de dados, não dispúnhamos de poder computacional que permitisse tratar esses dados e extrair informação relevante dos dados recolhidos. Hoje, ciências de vários domínios combinam-se e potenciam-se mutuamente, da biotecnologia à nanotecnologia e à informática, sendo possível não apenas recolher essa gigantesca quantidade de dados, mas também tratar esses dados em supercomputadores rapidíssimos e convertê-los em informação valiosa, que permite depois construir conhecimento que nem sonhávamos antes poder obter.
Foram aliás estes novos poderes de cálculo e processamento de informação que abriram lugar à inteligência artificial, que mais não é do que a reprodução, em materiais inorgânicos como o silício, de redes neuronais semelhantes às orgânicas, existentes no nosso cérebro.
Nas últimas dezenas de anos, as neurociências têm vindo a fazer avanços e descobertas incríveis que permitem perceber onde e como, no nosso cérebro, acontecem fenómenos como o medo, a esperança, o desejo, ou onde são tomadas as decisões. É possível medir os padrões eletroquímicos associados a diferentes estados de consciência. Até há pouco tempo, podíamos apenas conjeturar sobre esses estados e fenómenos. Hoje, podemos mesmo medi-los. Antes, pensávamos que a vida mental ocorria num espaço um pouco vago, indefinido, situado algures na nossa mente, mas impossível de localizar exatamente. Hoje, com os avanços realizados na imagiologia funcional do cérebro e na capacidade de analisar e interpretar uma incrível quantidade de dados muito rapidamente, podemos saber exatamente que áreas do cérebro e estruturas neuronais estão envolvidas em diferentes estados da mente: desejo, fúria, medo…
Dizer que temos um sistema nervoso autónomo não é o mesmo que dizer que temos um sistema nervoso isolado
Um grupo de tarefas que estão entre as mais importantes que o nosso cérebro executa, entre as mais exigentes e as que gastam mais energia relacionam-se com o controlo e gestão deste organismo altamente complexo em que nos transformamos, ao longo de milhões de anos de evolução, o corpo humano.
Embora não caiba na designação geral de “pensar”, por estar atribuída ao sistema nervoso autónomo, a tarefa de gerir sistemas fisiológicos como a circulação sanguínea, a respiração e a digestão é muitíssimo exigente, quer na espécie humana quer noutras espécies que possuem um organismo complexo, em especial os mamíferos.
Além desta gestão dos sistemas biológicos e funções corporais involuntárias, realizada pelo sistema nervoso autónomo, o controlo de funções e atividades voluntárias complexas, tipicamente humanas, como a motricidade fina das nossas mãos e dedos, é também altamente dispendioso do ponto de vista energético.
O cérebro executa muitas tarefas e funções complexas de forma autónoma e automática. Executa muitas outras que, embora dependam da nossa vontade, se desenrolam de forma inconsciente. Muitas delas são tão mais bem executadas quanto mais inconscientes delas estivermos.
Na maior parte das tarefas que temos de realizar enquanto seres vivos, a consciência atrapalha. Embora este facto não seja intuitivo, é possível afirmar com segurança que o facto de não termos consciência de muitas das tarefas que realizamos é o que potencia a nossa ação e o que nos salva.
Felizmente, a natureza impede-nos que a nossa consciência tenha acesso à maior parte dos nossos pensamentos.
O que seria de nós se tivéssemos de pensar conscientemente em todos os movimentos necessários para dar aquele salto que nos salvou de um carro que se aproximava rapidamente de nós e por pouco nos atropelava?
São muitos os exemplos que podemos invocar. Pensemos neste exemplo.
Quando aprendemos a conduzir um automóvel pensamos de forma consciente em todos os movimentos que executamos: agora carrego neste pedal, depois empurro a alavanca, agora viro o volante… Ora, como qualquer condutor experiente sabe, nós só estamos verdadeiramente aptos a conduzir quando os pensamentos necessários para executar bem essas tarefas não chegam à nossa consciência.
Ou ainda neste outro exemplo.
Se o Ronaldo tivesse de tomar consciência de todos os movimentos necessários para executar um drible e atirar à baliza com a força e direção certas, não teríamos Ronaldo.
Poderíamos ser tentados a pensar que a parte do cérebro que controla quer as respostas automáticas e inconscientes quer a respiração, os batimentos cardíacos, a circulação sanguínea ou os movimentos do intestino é independente da parte do cérebro respeitante à nossa racionalidade mais complexa ou às nossas emoções mais íntimas, desejos, ou medos. Mas não. Nada mais falso. Está tudo interligado.
O facto de o sistema que regula estas últimas funções se designar por “sistema nervoso autónomo” é enganador. Há partes do nosso cérebro onde ambas as tarefas se realizam, as que são e as que não são dependentes da nossa “vontade”: estruturas cerebrais (como o hipotálamo, por exemplo) em que se cruzam informações quer do sistema nervoso autónomo quer do sistema nervoso central.
Ao contrário do que possa parecer, uma boa parte dos circuitos neuronais em que se desenrolam as tarefas cognitivas automáticas (o sistema nervoso autónomo) é partilhada com os circuitos onde se desenrolam quer as emoções, quer as funções cognitivas mais complexas, como o raciocínio, a reflexão criativa ou a meditação. Não há no cérebro um lugar especial para a nossa alma.
Todos já experimentamos “estados de alma” que afetam as nossas funções mais básicas: a digestão, os intestinos, os batimentos cardíacos, etc. São muitas as interações entre a nossa razão, as nossas emoções e o nosso sistema nervoso periférico, incluindo o designado sistema nervoso autónomo.
Até há pouco tempo acreditava-se na especialização e compartimentação das áreas do cérebro em tarefas muito específicas, mas hoje sabe-se que, embora haja regiões mais especializadas em certas tarefas, quase todas as tarefas cognitivas implicam o trabalho conjunto, em rede, de múltiplas regiões cerebrais.
Há ligações importantes entre o córtex pré-frontal (onde planeamos a nossa vida e a nós próprios e onde decorrem as funções cognitivas mais complexas) e as estruturas responsáveis pelas nossas emoções; há também ligações importantes entre estas duas estruturas e o sistema nervoso autónomo, onde decorrem as funções mais básicas e automáticas.
A forma como encaramos o mundo e a nós próprios afeta quer as nossas emoções quer as funções mais básicas do nosso corpo.
Que língua fala o nosso cérebro?
Um grupo de atividades que estão entre as mais complexas e energeticamente mais dispendiosas que o nosso cérebro executa é a de traduzir todos os dados sensoriais do mundo exterior (visuais, olfativos, táteis, auditivos…) numa linguagem que ele possa processar e compreender.
É bom lembrar isto: o nosso cérebro processa o mundo exterior, mas não tem acesso direto a ele. O cérebro está bem protegido e escondido do mundo, encerrado na escuridão dessa fortaleza que é a nossa caixa craniana. Os nossos olhos veem e os nossos ouvidos ouvem. Mas esses órgãos são apenas instrumentos sensoriais de que o cérebro se serve para trazer o mundo até si.
O cérebro é a central de comando do nosso corpo. Os órgãos dos sentidos são os seus emissários, os instrumentos de que ele se serve para trazer até si todas as informações do mundo de que necessita para poder encontrar o melhor modo de sobreviver e de agir sobre ele, de modo a poder atingir a mais alta taxa de sobrevivência possível. É este o objetivo de qualquer ser vivo.
Que parte de nós quer compreender o mundo? Os olhos? Os ouvidos? Não. Esses órgãos são apenas sensores do mundo, relativamente passivos, limitando-se a registar dados, visuais e sonoros, respetivamente. Quem quer compreender o mundo é o nosso cérebro. É, pois, necessário que ele consiga traduzir, processar e entender os dados do mundo que aqueles órgãos lhe fazem chegar.
Raramente nos lembramos disto, mas dá um trabalho colossal transformar todos os dados que os sentidos transportam para o cérebro em informação que ele possa entender.
É bom lembrar que os dados que entram pelos olhos e pelos ouvidos não transportam qualquer sentido ou significado. São apenas isso: dados. E os dados não transportam informação. Somos nós que a produzimos.
As ondas sonoras que bombardeiam os nossos tímpanos e os feixes de fotões que atingem a nossa retina têm de ser transformados em sinais que o cérebro possa compreender.
Esquecemo-nos frequentemente disto: o tecido cerebral “processa o mundo” mas não vê nem ouve. O cérebro é um tecido que apenas conhece sinais químicos e elétricos. Por conseguinte, quer as ondas sonoras e as vibrações no tímpano quer os fotões que incidem na retina têm de ser transformados em sinais eletroquímicos, que são os únicos “pedaços de informação” que circulam entre os neurónios do nosso cérebro. O sentido que damos ao mundo resulta destes sinais. Os sinais transportam algum tipo de informação. Mas o trabalho colossal é transformar os dados do mundo em informação eletroquímica e a informação eletroquímica em conhecimento.
Imagine-se o trabalho necessário para transformar as imagens e os sons do mundo que nos rodeia nessa linguagem feita apenas de sinais eletroquímicos, que é a única linguagem que esse quilo e meio de tecido orgânico dentro do nosso crânio conhece. Se esta é, por si só, uma tarefa colossal, imagine-se o trabalho que dará depois interpretar o mundo e dar-lhe um significado, com base apenas nesses sinais eletroquímicos.
Não esqueçamos que o cérebro está encerrado no silêncio de uma câmara escura. Tudo o que sabe do mundo chega-lhe através desses sinais eletroquímicos em que são transformados os dados enviados pelos diferentes sentidos do nosso corpo. Não há outra linguagem que ele conheça. E, no entanto, é dentro dessa câmara escura que tudo o que mais nos importa se passa: as tristezas, as alegrias, os desejos, as inquietações. É aí, e apenas através desses sinais, que o nosso cérebro conhece e experiencia o mundo.
A nossa retina é bombardeada por milhões de fotões por segundo, em diferentes comprimentos de onda, o que nos possibilita ver as cores e as formas dos objetos à nossa volta. Essas imagens, através de processos complexos que ocorrem no sistema visual, têm de ser depois conduzidas ao cérebro, em forma de sinais elétricos, onde são interpretados, de modo a formar padrões que “façam sentido”.
Do mesmo modo, os nossos ouvidos recebem do mundo que nos rodeia diferentes ondas sonoras, que são na verdade variações subtis na pressão do ar, que depois sofrem um complexo processo até chegar ao ouvido interno, na forma de subtis vibrações. Essas vibrações são depois convertidas em sinais elétricos, na cóclea, e enviados pelo nervo auditivo ao cérebro, que tem ainda de processá-los e traduzi-los para esse complexo sistema de sinais eletroquímicos com que o cérebro trabalha todos os dados e sinais que lhe chegam.
Depois, o cérebro tem ainda de interpretar os sinais, isto é, tem de “encaixá-los” num certo modelo do mundo que construiu desde que nascemos, também apenas com dados elétricos e químicos, no escuro silencioso da caixa craniana.
Interpretar o mundo, do ponto de vista do funcionamento do nosso cérebro, é isto: comparar biliões de padrões de sinais eletroquímicos que chegam ao tecido nervoso e que são a expressão da exposição dos nossos órgãos dos sentidos ao mundo.
Estas são tarefas a que habitualmente não chamamos “pensar”. Mas devíamos. São tarefas mentais. Não as designamos por “pensar” porque elas ocorrem sem termos consciência delas. Menosprezamos as tarefas complexas que o cérebro executa quando não temos acesso a elas através da consciência.
Comandar um corpo humano é uma tarefa hercúlea
Mas não se trata apenas da complexidade por detrás do processo de fazer chegar ao nosso cérebro os dados do mundo, uma viagem que se faz a partir dos órgãos dos sentidos, do corpo exposto ao mundo, para o cérebro, que o interpreta. Trata-se também da complexidade que está por detrás do caminho inverso. Imagine-se o trabalho que dá fazer chegar ao corpo, aos músculos e tendões dos nossos braços e pernas, as instruções e os sinais necessários para que executem esta ou aquela tarefa, desta ou daquela maneira.
Pensemos, por exemplo, na precisão de movimentos e na sincronização necessárias para levar à boca uma simples colher de sopa. É todo um arsenal de sistemas biológicos que entram em ação. Se pensarmos na complexidade desta ação, não admira que os bebés demorem tanto tempo até conseguirem realizar com sucesso esta proeza.
O córtex motor e outras zonas do cérebro desencadeiam o movimento, o sistema visual recolhe dados sobre a forma da colher e a sua posição no espaço, enviando ao cérebro os dados que lhe permitem ajustar o movimento. O sistema motor responsável pela motricidade fina recorre aos tendões e aos músculos do braço, das mãos e dos dedos para que entrem em ação de forma coordenada e, juntamente com o sistema visual, façam com que a colher execute o movimento correto no espaço e seja direcionada na exata direção da nossa boca, com a velocidade adequada a esta operação, enquanto o sistema somatossensorial vai fornecendo informações para ajustarmos a pressão que os nossos dedos exercem para pegar na colher.
Além deste planeamento coordenado de ações, há ainda o recurso à memória, que nos permite, de cada vez que levamos uma colher à boca, lembrarmo-nos de como este movimento se executa. A memória representa uma enorme poupança nos gastos energéticos do cérebro: sem ela, de cada vez que executássemos a ação de levar uma colher de sopa à boca, ele teria de “pensar” novamente, de raiz, no modo mais apropriado para executar eficazmente esta ação, para coordenar todos estes sistemas da melhor forma para levar a colher à boca.
Um mistério chamado vontade
Além destes sistemas, em especial o músculo-esquelético e o sensorial, há ainda um outro sistema de funções que tem de entrar em ação no nosso cérebro antes destes, e articuladamente com eles. No seu todo, podemos dar a esse outro sistema de funções cognitivas a designação genérica de vontade. Sem vontade, a maior parte dos movimentos não podem ser executados.
É a vontade que determina que esses outros sistemas sejam acionados e que o simples movimento de levar a colher à boca seja executado.
É claro que existem muitos movimentos que são involuntários, que diríamos serem independentes da nossa vontade, mas serão efetivamente independentes? Ou estarão apenas escondidos da nossa consciência?
Levar uma colher à boca e muitos outros movimentos que executamos têm de ter o aval desse sistema complexo ao qual se subordinam todos os outros sistemas biológicos que acabei de referir. Esse sistema complexo conhecido por vontade está localizado, sobretudo, no córtex pré-frontal, área responsável pelo planeamento de comportamentos complexos e por outras funções importantes, como a tomada de decisões. A vontade é a chave do movimento. Curiosamente, esse sistema de ações a que chamamos vontade está localizado na mesma área cerebral que permite inibir comportamentos ou ações automáticas ou inapropriadas, como atirar com a colher de sopa a alguém que esteja a aborrecer-nos, por exemplo.
O que é isso a que as ciências cognitivas chamam “the hard problem”?
Os exemplos que acabo de referir servem sobretudo para evidenciar a complexidade das tarefas que o nosso cérebro executa e às quais habitualmente não chamamos “pensar”, por serem executadas sem intermediação da nossa consciência. Contudo, se pensarmos bem, elas exigem um planeamento, uma precisão e uma complexidade bem superiores àquelas tarefas do cérebro a que temos acesso através da consciência e que consistem, por exemplo, em ruminar o passado e conjeturar o futuro, com base em narrativas interiores que criamos para servir de suporte a essa entidade fictícia a que chamamos “eu”.
Não há dúvida: somos os únicos animais capazes de levar uma colher de sopa à boca e de limpar o rabo com papel higiénico. Estas são tarefas que menosprezamos, mas que exigem uma imensa aptidão para pensar, isto é, uma enorme capacidade mental para processar informação e executar tarefas com precisão, tendo em vista a execução de ações complexas, essenciais para a sobrevivência da espécie.
Apesar de se tratar de tarefas muitíssimo complexas, tipicamente e exclusivamente humanas, muito difíceis de compreender quando queremos explicar os complexos processos cognitivos que elas envolvem, temos de admitir que não são estas as tarefas que consideramos mais difíceis de explicar. Não são estas as respostas que procuramos e ambicionamos obter. Não é este o ponto. Não é esta a questão.
A questão mais difícil e surpreendente relacionada com esta atividade mental genérica que o nosso cérebro realiza e que podemos designar por pensar é a seguinte: como raio é que os sinais eletroquímicos que circulam no nosso tecido cerebral dão origem, por um lado, a tarefas e comportamentos biológicos complexos e objetivos e, por outro lado, dão lugar também a experiências subjetivas como o amor, a tristeza ou a raiva?
Esta é, na verdade, a questão central da existência humana a que ninguém ainda conseguiu dar resposta satisfatória. Como pode a “alma humana” resultar da atividade eletroquímica? É este o problema mais difícil que as ciências da cognição enfrentam. Nas neurociências, este mistério é conhecido por “the hard problem” (o problema difícil), ou seja: como é que fenómenos que sabemos que ocorrem nos tecidos orgânicos, sendo necessariamente fisiológicos, eletroquímicos, são percecionados como fenómenos mentais e subjetivos?
De tão surpreendente e complexo que este fenómeno é, temos dificuldade em aceitar que ele possa ter resultado, não de “mão divina”, mas da lenta e demorada evolução da matéria orgânica de que os seres vivos são feitos.
Porém, não é pelo facto de termos pela frente uma questão tão difícil que devemos aceitar explicações simplistas, infundadas ou mistificadoras. Pelo contrário, a complexidade desta questão exige de nós uma abordagem paciente, rigorosa e interdisciplinar, baseada em evidências científicas. Só assim conseguiremos avançar um pouco de cada vez, ainda que milimetricamente, no entendimento do mistério da consciência e das emoções humanas.
Compreender e responder satisfatoriamente àquela questão é uma tarefa hercúlea, sem dúvida, mas já estivemos muito mais longe de poder fazê-lo.
Seria muito mais fácil aceitarmos que certas características humanas, incluindo a fala, a produção de sentido e a consciência, resultam da lenta e demorada evolução se pudéssemos acompanhar, passo a passo, a evolução das espécies, durante os muitos milhões de anos em que ela decorreu: milímetro a milímetro, de espécie em espécie, poderíamos assistir à construção dessa complexa peça de relojoaria biológica em que cada um de nós se transformou.
Para nos ajudar a perceber como chegamos até aqui e como nos transformamos de meros mamíferos primatas em construtores de bombas e foguetões, é bom ocasionalmente observarmos os nossos primos, que poderão lançar luz sobre o que poderão ter sido estádios intermédios dessa evolução, como é o caso dos vídeos que circulam no YouTube do primata Kanzi.
Temos tendência para acreditar que os tecidos que compõem o cérebro humano são estruturas fisiológicas onde acontecem apenas fenómenos fisiológicos. Não nos custa perceber que estes tecidos comandam fenómenos como a respiração, a digestão e a circulação sanguínea. Nem nos custa perceber que é nestes tecidos que têm origem fenómenos como a sede, a fome e o sono. O que nos custa perceber é o facto de ser também nestes tecidos do cérebro humano que têm origem sentimentos como o orgulho, a saudade, a esperança, a tristeza, o amor. Custa-nos imaginar que possa existir uma correspondência entre o que chamamos “estados de espírito” e os fenómenos fisiológicos que lhes dão origem, que não são mais do que ligações eletroquímicas entre neurónios.
Habitualmente, acreditamos que os primeiros fenómenos são apenas fisiológicos, ou meramente materiais e físicos, enquanto os segundos têm uma natureza diferente: são fenómenos mentais, de ordem superior.
A consciência é um mecanismo evolutivo desenvolvido pela espécie humana, através do qual tomamos conhecimento subjetivo do mundo e de nós próprios. Mesmo que saibamos que este mecanismo que designamos por consciência ocorre em estruturas fisiológicas que podemos designar muito objetivamente (em células localizadas, sobretudo, nos tecidos do nosso cérebro, designadas neurónios, que se especializaram em transmitir muito eficazmente sinais eletroquímicos), não há dúvida de que o modo como experienciamos esse mecanismo fisiológico é subjetivo.
Mesmo que saibamos que é nas estruturas fisiológicas do nosso cérebro (por não poder ser em nenhum outro lugar) que ocorrem os fenómenos que designamos por “mentais”, preferimos continuar a pensar que, vagamente, dentro da nossa caixa craniana, por entre os interstícios do nosso cérebro, existe esse espaço indefinível, diferente dos tecidos físicos, um espaço mental onde esses outros fenómenos de ordem superior ocorrem.
Gostamos de acreditar que estes fenómenos que designamos por “mentais” ou, pelo menos, aqueles que são tipicamente humanos (como a consciência) não podem ocorrer numa estrutura que é meramente física, não podem ser o resultado de meras reações neuronais químicas e elétricas, mas devem ocorrer algures, não sabemos bem como, num “espaço etéreo”, exclusivamente humano, que todavia não conseguimos definir bem, nem situar em parte alguma, dentro de nós. Muitas vezes, dizemos apenas vagamente: Há algo para além do corpo. E todos falamos disso, dando como adquirido que esse espaço a que por vezes chamamos alma existe, apesar de ninguém, nunca, o ter encontrado.
Pois bem, talvez esse espaço não exista. Talvez esse espaço seja apenas uma miragem, uma invenção da espécie humana, que nem sempre traz felicidade nem paz. Bem pelo contrário.
Talvez se trate apenas da miragem de um espaço inexistente. Ou talvez a consciência humana seja simplesmente um subproduto da atividade complexa da nossa mente, do mesmo modo que os gases de escape dos automóveis são um subproduto de um mecanismo mais amplo e complexo que designamos por motor.
Esta analogia pode parecer imprópria ou inusitada, mas estende-se, também, aos efeitos tóxicos que esses subprodutos podem ter, se pensarmos que em nome da subjetividade e, em especial, em nome da fé e da “alma humana” se cometeram os maiores crimes contra a humanidade.
Como a complexidade subjacente à consciência e à experiência subjetiva é muitíssimo elevada (trata-se afinal do resultado de fenómenos eletroquímicos muito específicos que ocorrem em biliões de ligações sinápticas nos tecidos nervosos do nosso cérebro), o que o ser humano faz, muito naturalmente, é colmatar esta ignorância com teorias científicas explicativas, com obras de arte ou com a fé. Mas as teorias explicativas são apenas palavras e as palavras não chegam para tal empreendimento. A consciência e a subjetividade que cada um de nós experimenta dentro de si são, e serão sempre, indizíveis.
Por muitos avanços que as ciências da cognição façam, por muito que evolua o nosso conhecimento do cérebro, por muitas e belas obras de arte que sejam produzidas, por muitas músicas e poemas que sejam escritos, por muito que tentemos exprimir as subtilezas dessa experiência subjetiva a que muitas vezes chamamos voz interior ou alma humana, a sua natureza é de tal modo singular que não saberemos nunca exprimi-la adequada e completamente em palavras.
As palavras são boas para traduzir várias atividades que o ser humano leva a cabo. Mas, para dizer o que é a subjetividade ou o que é a consciência, as palavras não servem. São muito pouco adequadas para tão complexa realidade. Pedimos demasiadas coisas à linguagem, às palavras. E demasiadas vezes. E nem nos ocorre que elas são apenas uma invenção humana para estabelecer uma relação que nem sempre é possível estabelecer: a relação entre uma dada realidade, existente ou imaginada, e um conjunto de sons que pronunciamos, ou um conjunto de carateres que escrevemos.
Partimos do princípio de que as palavras podem sempre representar esse mundo, real ou imaginado. Mas não. Há realidades que não se deixam exprimir em palavras, que não cabem dentro delas.
É por isso que, por vezes, sentimos que não é na racionalidade das palavras que encontramos a explicação que intimamente procuramos para questões ou problemas que por vezes nem sabemos formular: uma música especialmente bela, um filme marcante ou uma outra qualquer obra de arte podem conter dentro de si todo um modelo explicativo do mundo, que momentaneamente precisamos de encontrar e que seria impossível descrever na linguagem das palavras ou encontrar num qualquer outro templo da racionalidade humana. As palavras até podem estar lá, mas não estão no seu sentido mais literal, como sucede na poesia ou nas canções.
Quem nunca experimentou a sensação de ouvir uma música que de repente faz com que tudo faça sentido? (dois meros exemplos colhidos do presente mais imediato e de extremos musicais: Mercy, de Max Richter, e Romantic Homicide, do adolescente d4vd).
É muito difícil admitirmos que a nossa alma, a nossa espiritualidade ou esse frémito que sentimos ao ouvir uma música que nos faz “sorrir o espírito” tenha origem em ligações sinápticas semelhantes às que nos permitem levar uma colher de sopa à boca ou limpar o rabo com papel higiénico. Mas, qual é o mal? Porque não admiti-lo?
