Porque pensamos? (Parte 2)

Na parte 1 deste tópico afirmei que a nossa identidade pode ser encontrada naquilo que pensamos. Porém, sucede que aquilo que pensamos não é apenas aquilo de que temos consciência que pensamos, resultando daqui um paradoxo que consiste em sermos necessariamente desconhecidos de nós mesmos, porque há um ser dentro de nós que pensa longe dos holofotes da nossa consciência.

Esta constatação tem uma importância vital, porque o significado e o valor de uma vida humana tem muito mais que ver com o que se passa nesse “mundo” que há dentro de nós (desconhecido de nós) do que com o que se passa no mundo a que temos acesso consciente e no mundo exterior a nós. 

Esta afirmação é facilmente verificável se pensarmos na quantidade de pessoas com relações sociais intensas e com abundantes bens materiais, mas cujas vidas são objetivamente miseráveis; é verificável também se, por outro lado, pensarmos nas muitas pessoas com vidas sociais muito recatadas e com escassos recursos materiais, mas cujas vidas são objetivamente ricas e intensas. 

Outro modo de verificar esta evidência é pensarmos nas muitas pessoas que, tendo tido experiências traumatizantes, infâncias infelizes e contextos familiares tóxicos, superaram tudo isso e se transformaram em pessoas fortes, resilientes e felizes; enquanto outras, tendo tido uma infância feliz, com muito conforto e segurança afetiva e material, se transformaram em adultos caprichosos, inseguros e infelizes. 

Se o valor e o significado da nossa vida, se aquilo que determina a possibilidade de sermos felizes ou infelizes, é a nossa vida interior, então há que conhecer bem a matéria de que essa vida interior é feita.

Por muito complexos que sejam os caminhos que explicam cada vida singular, obteremos sempre o mesmo resultado: a matéria de que é feita a nossa vida interior não é nada de transcendente. Trata-se apenas da nossa atividade cerebral, essa atividade eletroquímica tão misteriosa quanto ainda desconhecida: o pensamento. Não apenas os pensamentos que assomam à nossa consciência, mas o pensamento todo: incluindo os circuitos e padrões de funcionamento neuronal que nos escapam, mas que, consistentemente, “pensam por nós”, sem que saibamos exatamente como nem porquê. Sabemo-lo quando nos sentimos invadidos por uma alegria que não prevíramos ou, pelo contrário, quando somos apanhados numa rede de angústia que não sabemos de onde vem. Sabemo-lo tardiamente, quando a nossa consciência de nós nos descobre felizes ou angustiados. Porquê? Não sabemos. Alguém dentro de nós “pensou por nós”.

Desde sempre, nós, humanos, aprendemos a designar de formas muito diversas o que ainda não conhecemos bem. Podemos ter muitos nomes para isto a que chamo vida interior; podemos chamar-lhe espírito, psique, mentalidade, o que quisermos. Mas a matéria de que ela é feita não é senão esta: pensamento, ou seja, atividade eletroquímica no nosso tecido cerebral (Onde mais poderia ela ocorrer?). 

São pois esses pensamentos que determinam a nossa felicidade ou infelicidade. Desta constatação decorre o seguinte: é relativamente óbvio e fácil concluir que os nossos pensamentos são o nosso maior tesouro; do mesmo modo, é fácil também concluir que os nossos pensamentos podem ser a nossa maior perdição. 

Uma nota é aqui fundamental: não confundamos pensamento com consciência, aqueles pensamentos de que nos damos conta e que conhecemos bem. Por pensamentos refiro-me àquela atividade cerebral que nos molda e define, a maior parte da qual não conhecemos, nem sequer nos damos conta da sua existência.

O sofrimento, por exemplo (e não me refiro ao sofrimento físico), é uma experiência consciente, mas isso não significa que os processos que determinam esse sofrimento também o sejam. 

Essa atividade mental com que nos vamos entretendo diariamente e da qual estamos bem conscientes é apenas uma pequena parte da atividade que o nosso cérebro realiza. Por estarmos bem conscientes dela, julgamos que é essa atividade mental que melhor caracteriza a nossa identidade. Por outro lado, não valorizamos outras atividades mentais que se desenrolam longe da nossa consciência. 

É sempre bom lembrar: geralmente, não escolhemos os nossos pensamentos. Se estivermos encerrados em pensamentos negativos e autodestrutivos, a nossa qualidade de vida deteriora-se e pode cair a pique, independentemente das condições externas que possamos ter. Não importa se somos materialmente ricos ou pobres. Por outro lado, se os nossos pensamentos forem positivos e construtivos, as nossas experiências de vida são mais significativas e mais prazerosas, ainda que as condições externas não sejam as melhores. A nossa vida interior pode trazer-nos realização, equilíbrio e paz. 

Resulta daqui uma evidência gritante: se a nossa felicidade e a nossa realização pessoal dependem da qualidade dos nossos pensamentos, não deveria ser uma tarefa prioritária aprendermos a ter pensamentos positivos?

Por que razão, então, este é um tema tabu? Por que razão, geralmente, se considera que este é um assunto de místicos ou de gente que não tem mais o que fazer, ou ainda de adeptos de um certo ramo da designada psicologia positiva, por muitos considerada charlatanice, centrada no autocrescimento, na autoajuda, no desenvolvimento pessoal?

Só consigo adivinhar uma única razão: as pessoas, geralmente, não estão dispostas a reconhecer que transportam dentro de si um ser desconhecido, um mundo por descobrir. Como se acham donos dos seus pensamentos, senhores das suas ações, ao volante dos seus desejos e decisões, deixam que se instale a ilusão de que têm o controlo total sobre as suas próprias vidas, por não conseguirem ter o discernimento necessário para perceber que a complexidade da mente humana faz com que muitas das nossas ações e decisões sejam ditadas por processos mentais que decorrem longe da nossa consciência e, por conseguinte, longe do nosso livre-arbítrio.

Não há dúvida: é necessário ter coragem e humildade para reconhecer que somos, em grande parte, moldados por forças internas que desconhecemos, que não entendemos ou de que não temos consciência.  

Como já disse noutro lugar, as pessoas confundem aquilo que são com os pensamentos que têm. E ao fazê-lo são controladas e manietadas por esse fluxo de pensamentos que corre livremente dentro delas, alguns dos quais assomam à sua consciência sem a sua licença nem o seu desejo.

Aquilo que somos resulta em grande parte dessa atividade cerebral de que não temos consciência. Até mesmo a definição de objetivos pessoais a longo prazo ocorre, em grande parte, a um nível inconsciente, ainda que possam ser orientados por metas e valores conscientes. O mesmo sucede com as nossas paixões: todo o tipo de paixões. Elas formam-se a um nível inconsciente, ainda que algumas vezes, ingenuamente, pensemos que sabemos bem porque as temos e julgamos que estamos bem cientes delas.

O desafio que temos pela frente é este: aprender a gerir e a orientar os nossos pensamentos, por forma a conseguirmos construir uma vida interior rica e saudável. 

Aprendermos a ser os arquitetos dos nossos próprios pensamentos (pelo menos, de uma boa parte deles) é tarefa para toda uma vida.

Se pudermos pensar sobretudo aqueles pensamentos que correspondem aos nossos princípios e valores, então esses pensamentos irão moldando a pessoa em que nos vamos transformando, a pessoa em que queremos tornar-nos. Porque são os nossos princípios, os nossos valores e a nossa integridade que determinam o nosso destino. 

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