Porque pensamos? (Parte 1)

Retrato de Friedrich Nietzsche. Por Edvard Munch. 1906.

Esta pintura, de um dos meus pintores preferidos, o norueguês Edvard Munch, retrata um dos meus pensadores preferidos, Friedrich Nietzsche, a fazer aquilo que sabia fazer melhor e que fazia muito intensamente: pensar.

De tanto pensar, este último enlouqueceu. O primeiro também, tendo mesmo estado internado uns bons tempos, o que mostra que loucura, genialidade e pensamento intenso andam de mãos dadas. E talvez namorem para casar.

A primeira vez que o mundo se deu conta de que Nietzsche enlouquecera ocorreu em Turim, quando este filósofo de origem alemã abraçou e beijou um cavalo que estava a ser vítima de maus-tratos pelo seu dono, por se recusar a andar, tendo o filósofo desatado de seguida a soluçar e a chorar convulsivamente.

Este episódio é retratado no belíssimo filme O cavalo de Turim, do cineasta húngaro Bela Tarr (ainda tenho em DVD). Este cineasta, juntamente com o russo Andrei Tarkovsky, é autor dos filmes esteticamente mais perfeitos de sempre (é uma mera opinião, a descartar rapidamente). Mas justifica que deixe aqui a imagem de ambos, porque o semblante de um e o perfil de outro deixam adivinhar, por alguma razão que não consigo explicitar bem, o que acabo de dizer.

Andrei Tarkovsky
Bella Tarr

Não nascemos para pensar

É difícil, contraintuitivo e até mesmo um pouco desagradável dizer isto, mas o nosso cérebro, ao contrário do que parece, não foi feito para pensar: com pensar refiro-me aqui apenas ao sentido que estamos habituados a dar ao verbo “pensar” e não incluo outros sentidos deste verbo, dos quais falarei mais tarde.

Esta tarefa de “pensar”, que tanto valorizamos e que nos permite por vezes passar horas às voltas de um sítio desconhecido para chegar a lugar nenhum, não é a tarefa mais importante que o nosso cérebro realiza. Nem de longe. Como poderia sê-lo, se somos seres tão inteligentes e temos tarefas tão mais importantes a desempenhar para assegurar a nossa sobrevivência?

A atividade de pensar, tal como habitualmente a concebemos, enquanto expressão da nossa subjetividade, da nossa consciência, ou ainda enquanto energia mental que pomos em ação quando precisamos de resolver um problema complexo, como já disse antes, não é mais do que um mecanismo que a certa altura surgiu no desenvolvimento evolutivo da nossa espécie e que terá sido determinante para que a espécie humana pudesse ganhar vantagens competitivas importantes para a sobrevivência, reprodução e supremacia face a outras espécies. 

Estima-se que toda esta atividade que designamos por pensar seja apenas cerca de 20% a 40% das tarefas que o cérebro realiza.

É claro que o pensamento abstrato, a capacidade de resolver problemas complexos e a imaginação criativa são atributos importantes, exclusivamente humanos, que nos distinguem de todas as outras espécies, mas isso não significa que estas tarefas tenham mais importância do que outras que o nosso cérebro executa e a que não damos muita importância, por decorrerem na sombra, de forma automática, ou por não termos consciência delas. 

As tarefas mentais que habitualmente não designamos por pensar, apesar de serem cruciais para a nossa subsistência, não costumam ter a atenção que nos merece a atividade mental que habitualmente designamos por pensar, apenas porque temos consciência desta última, mas não temos consciência das primeiras.

Tal como a criança de 12 meses que pensa que um objeto desapareceu apenas porque o escondemos atrás das costas, também nós temos a ilusão de que a atividade de “pensar” é apenas aquela que a nossa consciência alcança, que a nossa consciência “vê”.

Mas não. Há pensamentos (muito elaborados e complexos) de que não temos consciência.

O que quero dizer com isto é na verdade muito simples. A atividade mental consciente, isto é, aquela de que podemos dar-nos conta (quer os pensamentos que se instalam sem intervenção da nossa vontade, quer aqueles que “ativamos” porque decidimos pensar em algo) é apenas uma pequena parte da atividade mental que o nosso cérebro realiza. Há muita atividade mental (há muito pensamento) que o nosso cérebro realiza e que está bem longe do nosso olhar, oculto da luz da nossa consciência. 

Talvez esta ideia se formule melhor de outro modo. Nós encontramos a nossa identidade naquilo que pensamos: nós somos essencialmente aquilo que pensamos. No entanto, longe dos holofotes da nossa atenção e da nossa consciência, há um outro ser, desconhecido de nós mesmos, que pensa, e muito.

Parece paradoxal. Como se houvesse mais do que um ser dentro de nós. E há. É exatamente a isso que me refiro. E tal não deveria causar-nos surpresa. Este paradoxo não é maior do que aquele que resulta de admitirmos, frequentemente, que nos surpreendemos a nós próprios, pois não?

Mas, cuidado, porque a quem olha, olhos nos olhos, para esta evidência pode suceder o mesmo que ao pintor e ao filósofo que iniciaram este tópico. Como a quem olha intensamente para o sol pode acontecer cegar.

Aqui escrevo ideias, reflexões, fragmentos que um dia darão forma a este livro.

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