
Esta pintura é uma paródia a partir da pintura de René Magritte que surge na parte 2 desta mesma pergunta. Quem tiver saído frustrado das duas primeiras partes deste tópico encontrará nesta imagem certamente algum conforto.
Em geral, quando se atira uma tarte à cara de alguém, a intenção é humilhar, por brincadeira e sem magoar. Muitas vezes, este ato é entendido também como forma de protesto contra um político ou contra outra qualquer forma de exercício do poder. Outras vezes pode ser simplesmente uma reação a um discurso, verbal ou não verbal, que, parecendo relevante e verosímil, é apenas falacioso e fútil.
Esta ideia da tarte na cara surgiu pela primeira vez nas telas do cinema num filme mudo de 1909, Mr. Flip, com Ben Turpin.
Este é um tema caro ao próprio Magritte, que não se importaria nada (aposto) de ver a sua obra parodiada e “devassada”.
Resumindo tudo a poucas linhas, poderíamos dizer que se trata de evidenciar um facto muito comum em todos nós humanos, mas muito mais em políticos e em quem exerce o poder. O que se diz e o que se apresenta aos outros, ou seja, o que está visível, é muitas vezes apenas a máscara daquilo que é invisível mas real. Por essa razão, apetece desmascarar, ridicularizar aquilo que não é senão a máscara do que maliciosamente se esconde perante o nosso olhar.
A pergunta que inicia este tópico parece uma provocação, mas não é. Também parece impossível responder-lhe, mas também não é. A ser impossível responder, sê-lo-á apenas na medida em que as grandes questões nunca têm respostas definitivas.
E a verdade é que esta questão também não pode ter uma resposta definitiva. Ninguém a pode dar. Mas quem espera obter respostas definitivas para as grandes questões da vida? Não teriam graça nenhuma se assim fosse. Todas as questões podem, porém, ter alguma resposta, desde que esta seja humilde e provisória.
O que queremos saber quando queremos saber?
As respostas que obtemos satisfazem-nos não quando estancam definitivamente a nossa dúvida, mas quando nos incitam a saber mais. O ser humano é mais feliz na busca e na caça do que na satisfação e na saciedade. Estas últimas são apenas portas (e por vezes buracos) para a insatisfação e a dor.
Geralmente, não ficamos satisfeitos com as respostas às questões que colocamos por uma razão bem simples: não conseguimos ajustar as nossas expectativas às respostas que é possível obter.
Por vezes, esperamos até que nos deem respostas que não podem ser dadas senão por nós próprios. E quando isto sucede, quando gastamos toda uma vida a esperar impacientemente por respostas destas, perdemos o essencial que ela tem para nos dar, cegos pelo fogo que tudo queima do nosso olhar.
Há um exercício que todos podemos fazer e que torna mais clara esta ideia que acabo de expor. Sempre que tivermos em mente uma grande questão para a qual gostaríamos de obter uma resposta satisfatória, coloquemos a nós próprios esta questão: “Que espécie de resposta me deixaria satisfeito?” Por exemplo, quando pergunto: “Qual é o sentido da vida?”, que espécie de resposta espero obter? Vale a pena pensar nisso, quando ficamos insatisfeitos com as respostas que nos dão.
Porque pensamos?
Para a pergunta que inicia este texto, “Porque somos quem somos?”, há uma outra pergunta cuja resposta poderia ser uma das linhas de resposta à pergunta inicial: Porque pensamos?
“Pensamos” para dar significado à nossa vida e para planear e executar ações. E queremos dar um significado à nossa vida, planear e executar ações para quê? Para atingir dois objetivos: procurar o prazer e evitar o sofrimento. É tudo.
Se quisermos ser muitíssimo breves, é isto que há a dizer. Nestes dois objetivos se resume todo o percurso de uma vida humana. Por outro lado, dizer que a vida humana é apenas isto parece muito pouco. Parece um sacrilégio. Podemos ambicionar mais? Podemos, pois.
No entanto, destas simples afirmações acima podem ser deduzidos livros e estudos, teses e tratados. E muita poesia. Mas as teses e tratados são longos e aborrecidos. E a poesia pode ser, para além de aborrecida, incompreensível e árida.
A resposta dada acima é breve. Mas a brevidade é ingrata. Apesar de expor rapidamente o essencial, esconde os acessórios. E os acessórios são importantes quando o essencial é um lugar frio, como são certas verdades.
Precisamos dos acessórios porque precisamos de entrar devagar em certas verdades, como quando entramos na água fria do mar, ou numa caverna escura, munidos apenas de tochas e lanternas nas mãos.
Mas é para isso que servem os estudos, as teses, os livros e os tratados: para nos fazer chegar mais suavemente aos lugares onde precisamos de chegar, levados pelas ondas dos argumentos da racionalidade humana, ao lugar iluminado e frio onde a verdade resplandecente se anuncia.
Se olharmos nos olhos esta última pergunta, percebemos facilmente que a resposta é difícil. Mas não só. Podemos muito bem questionar-nos: afinal, para que raio serve saber “porque pensamos”?
Serve, por exemplo, para percebermos que a maior parte do tempo pensamos que pensamos porque decidimos pensar. Mas não é assim. A maior parte do tempo não temos qualquer influência sobre o conteúdo daquilo em que pensamos.
Serve também para tomarmos consciência de que aquilo que pensamos não é exclusivamente o que sabemos que pensamos.
Dito de outro modo: aquilo que pensamos não é apenas o que temos consciência que pensamos. Há muita “atividade pensante” que o nosso cérebro realiza e que a nossa consciência não alcança.
Geralmente, confundimos pensamento com consciência, como disse em texto anterior. Julgamos que o pensamento é apenas a consciência de pensar.
Mas quem disse que tudo o que pensamos (e que determina, afinal, quem somos) está acessível à nossa consciência? É claro que não está.
A conclusão mais imediata e óbvia que podemos extrair disto é que não sabemos, nem podemos saber, quem somos. Se não podemos sequer aceder a tudo o que se passa dentro de nós, como poderíamos saber exatamente quem somos? É por isso que “conhece-te a ti mesmo”, a inscrição encontrada no pórtico do Templo de Apolo em Delfos, na Grécia, é uma tarefa para toda uma vida, que ainda assim não ficará nunca concluída.
É este facto que explica, também, que nem sempre sejamos capazes de perceber como nos vamos transformando naquilo que somos. Nem sempre percebemos bem o que vai acontecendo com a nossa própria vida, o nosso próprio eu. É por isso que pode haver um divórcio profundo entre o que somos efetivamente e o que a nossa consciência julga que somos.
É duro admitir, mas não temos acesso a uma boa parte daquilo que somos.
Saber isto pode ser o início de uma nova jornada, uma nova vida.
O insconsciente é que manda
Estamos de tal modo presos umbilicalmente ao nosso pensamento consciente que nos esquecemos facilmente que há toda uma maquinaria desconhecida dentro de nós, que pensa e julga e decide por nós, longe do olhar da nossa consciência. O sofrimento, por exemplo, é uma experiência consciente, mas isso não significa que os processos que determinam esse sofrimento também o sejam.
Regressando à questão que nos surgiu da questão de partida: porque vale a pena saber porque pensamos? A maior vantagem em sabermos porque pensamos, para que pensamos e como pensamos é a de assim abrirmos a possibilidade de trazer para a área da consciência algumas dimensões do nosso mundo inconsciente que de outro modo permaneceriam para sempre ocultos. Não todos. Mas alguns. E esses poucos podem representar todo um mundo novo que se expõe perante o nosso novo olhar.
Não queremos habitualmente saber disto. Podemos até fugir e fingir que ignoramos. Mas isto, de que não queremos habitualmente saber (o facto de haver todo um mundo dentro de nós “que é”, sem que tenhamos consciência de “quem é”) é um facto que se impõe cada vez mais nas descobertas das neurociências e até mesmo nos processos por detrás da construção dos algoritmos que possibilitam a existência de inteligência artificial: somos em grande medida comandados pelo nosso inconsciente, isto é, por forças determinadas pelas circunstâncias em que decorre a nossa vida, mas que desconhecemos.
Já desconfiávamos que assim fosse, em especial desde a psicanálise de Freud e Jung, mas agora as neurociências comprovam-no de muitas formas.
É isto que nos dizem os últimos dados das ciências da cognição, em resultado das descobertas científicas das últimas décadas, em especial os novos dados que o acesso à “maquinaria cerebral” permite e o imprecedente processamento informático desses dados.
Há diferentes forças no nosso cérebro que se instalaram paulatinamente ao longo da nossa vida, que são responsáveis pela nossa forma de ser e pelas nossas ações e as quais desconhecemos. Somos de um certo modo e agimos de uma determinada maneira em resultado dessas forças, e não porque decidimos que fosse assim. A nossa consciência e, na verdade, aquilo que designamos por “eu”, limita-se a inventar uma história que dá coerência a esse ser e a esse agir. A nossa consciência especializou-se em criar ficções, incluindo a ficção desse “eu” sem o qual pode ser humanamente impossível viver.
Nem sempre estamos com as mãos no volante
É por isso possível afirmar de forma talvez enigmática, ou talvez não, o que dizia a canção “Brain damage”, dos Pink Floyd: “Há alguém dentro da minha cabeça mas não sou eu”. Há pensamentos que ocorrem de forma inconsciente (ou seja, pura e simplesmente, não temos acesso a eles, não nos damos conta deles). Há vários aspetos do nosso caráter e da nossa personalidade, da nossa forma de ser e de encarar o mundo e, enfim, da nossa vida, que não são determinados pelo pensamento consciente, não assomam sequer à nossa consciência, mas são determinados, outrossim, pelo pensamento que ocorre inconscientemente no nosso cérebro.
Não somos nós que mandamos em nós. Há múltiplas formas de sermos invadidos por outras fontes de poder, de decisão e de manipulação, sem que disso tenhamos consciência. Dos noticiários às redes sociais, da educação que tivemos até à rede de amigos que construímos, da matriz cultural e religiosa em que crescemos, até aos valores em que acreditamos.
Quanto mais julgamos que controlamos tudo o que acontece no nosso cérebro, quanto mais julgamos que estamos ao leme de nós próprios e que somos a única e exclusiva fonte das nossas próprias escolhas e da nossa vontade, mais expostos ficamos à influência externa, mais fácil se torna sermos manipulados.
Como disse já num outro lugar, termos consciência de que não estamos ao leme de nós próprios, sermos humildes e percebermos que estamos à mercê de múltiplas formas de manipulação, permite-nos, pelo menos, ficar um pouco resguardados dessas mesmas manipulações.
Se não estivermos alerta para este facto, somos muito mais facilmente manipulados por forças externas que não conhecemos ou contra as quais é muito difícil lutar.
Há muitas conexões, conclusões e decisões que realizamos e que acontecem longe da nossa consciência, num lugar a que não temos acesso. Quando o nosso eu consciente “decide” percorrer um dado caminho, “alguém” dentro de nós já decidiu. Frequentemente, o nosso ser consciente, aquele que efetivamente sabemos que somos, o único “eu” a que temos acesso e de que temos consciência, limita-se a ir atrás do que o inconsciente decidiu. Há inúmeras experiências recentes que o comprovam de forma cada vez mais categórica.
Saber isto ajuda-nos a perceber que não estamos sempre ao comando das nossas próprias ações, dos nossos próprios pensamentos, das nossas próprias razões, em suma: da nossa própria vida.
Queremos ser uma peça do jogo ou a mão que movimenta a peça?
Há decisões que tomamos e escolhas que fazemos que não são determinadas pela nossa própria vontade consciente. São, sobretudo, determinadas pelas circunstâncias em que a nossa vida decorreu, pelas situações e contextos a que estivemos expostos ao longo da nossa vida.
Claro que é muito difícil admitir isto: que as nossas decisões não são determinadas livremente por nós, no sentido em que não são fruto do nosso livre-arbítrio, da nossa autodeterminação. Mas quanto mais cedo o soubermos, tão mais cedo podemos tomar nas nossas mãos as rédeas do nosso próprio destino.
Antes, porém, pensemos demoradamente nas consequências deste caminho, porque a vida é feita de escolhas: se a vida é um jogo, se não estamos ao leme das nossas próprias ações, será que preferimos ser uma das peças do jogo, ou preferimos ser a mão que movimenta as peças?
