
Há alguém dentro da minha cabeça, mas não sou eu”. É este verso de um tema bem conhecido e bem antigo dos Pink Floyd que dará o mote ao texto que se segue.
Na canção original, designada “Brain Damage”, do álbum “The Dark Side of the Moon” (lançado no longínquo ano de 1973), de que alguns se lembram muito bem, o verso é assim: “there is someone in my head, but it’s not me”. A canção pode ser ouvida aqui (remasterização de 2023):https://tinyurl.com/yupdxpjk

Por vários motivos, que não vêm agora ao caso, toda uma geração venerou este tema, apesar de abordar o difícil tópico da loucura de uma forma muito enigmática. Diz-se que a letra da canção, escrita por Roger Waters, foi inspirada no facto de um dos fundadores da banda, Syd Barrett, ter exagerado durante anos no LSD e começar por essa altura a dar sinais de insanidade, passando por isso a viver “in the dark side of the moon”. Mas pouco importa isto. Importa sim que este tema, para além de musicalmente muito bom, é poeticamente muito revelador.
A letra de uma música pode revelar mais do que uma enciclopédia
Muitas vezes (facto que está por demonstrar e por explicar satisfatoriamente), as verdades ditas num contexto artístico (música, poesia, etc.) batem mais fundo em nós do que as mesmíssimas verdades apresentadas de forma linear, racional ou “científica”.
Para começarmos a entender este facto talvez seja necessário admitir que o funcionamento da nossa mente não é racional nem “científico”. Afinal, racionalidade e ciência são “invenções” muito recentes na história evolutiva da humanidade. Como diz “o meu amigo Harari”, nós, humanos, funcionamos por histórias, por narrativas. São estas que nos despertam e nos fascinam. E não por acaso. É o poder de inventar histórias, de acreditar nelas e de com elas construirmos culturas e sociedades, que mais nos distingue de outros animais. Daí que o poder de uma boa história (a de Cristo, por exemplo), seja bem maior que o poder dos dados científicos, dos números e das estatísticas, por muito racionais que estas sejam.
Mas, afinal, por que razão podemos, em certas circunstâncias, qualquer um de nós, sentir o mesmo que é descrito no verso daquele tema musical? “Há alguém dentro da minha cabeça, mas não sou eu”.
Evitamos falar do que não conseguimos explicar
É provavelmente o fenómeno mais difícil e mais complexo da nossa existência, mas isso não impede que possamos falar dele, embora necessariamente de forma muito breve e limitada. Porque é preciso começar por algum lado. Porque haveremos de fugir para sempre daquilo que é, afinal, o tema central das nossas vidas?
Para explicar esta sensação que muitos de nós, implícita ou explicitamente, sentimos, essa sensação de não podermos controlar o que se passa na nossa cabeça e quem somos, podemos começar por aqui.
Habitualmente, não comunicamos (ou perdemos mesmo o contacto) com a parte mais poderosa da nossa mente, que é o inconsciente. Embora se trate de uma simplificação que a muitos pode parecer grosseira, ele é responsável, segundo muitos, por mais de 90% do que somos. Esta é razão por que, por exemplo, não conseguimos fazer qualquer alteração duradoura nos nossos hábitos ou crenças se essa alteração não for plenamente assimilada pelo inconsciente.
Deste facto decorre um outro. E este é determinante.
Confundimos pensamentos com consciência
Muitas vezes, confundimos os nossos pensamentos com a nossa consciência. E é essa confusão que muitas vezes nos trai, nos condiciona, nos esmaga e nos prende a um lugar que nem nós próprios conhecemos bem.
É esta confusão entre consciência e pensamentos que nos faz ficar confusos, tristes ou mesmo deprimidos.
Para mim, descobrir esta diferença, senti-la no âmago do que ela significa e aceitar todas as consequências que esta descoberta me trouxe, a certa altura da minha vida, teve um impacto mais profundo do que qualquer outra alteracão ou acontecimento, quer de ordem pessoal quer de ordem profissional.
Mais uma vez, as metáforas podem ser o recurso mais adequado para vermos as coisas mais claramente.
No meio ligado às práticas de mindfulness, é habitual dizer-se que os pensamentos são como nuvens que se formam e se esfumam no céu imutável da nossa consciência. Não temos mão neles, pois não? Vão e vêm, livres e selvagens. Nós limitamo-nos a experienciá-los. Pensamos que estamos com as rédeas nas mãos, mas não. Nem por sombras. Nem mesmo podemos saber que pensamento surgirá a seguir na nossa mente. Os pensamentos, positivos ou negativos, fazem pop-up na nossa consciência sem que possamos controlar esse processo.
Esta diferença entre imutabilidade da consciência e mudança na constelação de pensamentos que nos assaltam consegue ver-se melhor se pensarmos no seguinte: o “eu” que somos hoje é muitíssimo diferente daquele que éramos aos 20 anos. Não é verdade? Por vezes, radicalmente. Gostos, hábitos, desejos.
Apesar disso, sentimo-nos a mesma pessoa, a mesma consciência.
Vivemos alegremente escondidos de nós próprios
Como se forma esse fosso entre a nossa consciência e a constelação de pensamentos que a assaltam? Este será um tópico para uma outra entrada. Por agora, fica apenas a impressão que nos deixa a pintura de René Magritte que inicia este texto.
Embora este pintor, tal como outros surrealistas, não gostasse muito que se interpretasse as suas obras, diz-se que ele próprio considerava esta sua pintura uma representação da natureza humana, em que tudo o que é essencial está escondido e o que está à vista esconde o invisível (como quando palramos num encontro social enquanto os nossos pensamentos voam para longe, ocupados no que verdadeiramente nos importa e nos apoquenta).
Esta pintura sugere que o nosso verdadeiro eu está oculto e que o que mostramos ao mundo é apenas a superfície. A maçã tapa a visão do rosto do homem, simbolizando que escondemos a nossa verdadeira identidade, quer a nós próprios quer aos outros. E o facto de ser uma maçã a fazê-lo não é acidental, por se tratar de um objeto ligado ao conhecimento, ao mistério e ao pecado: a tentação de viver uma vida superficial e em fuga da complexidade e das contradições que a nossa condição e a nossa natureza humana acarretam.
