Porque temos Fé?

Um dos maiores poetas brasileiros de sempre, Carlos Drummond de Andrade, dizia que “há  muitas razões para duvidar e uma apenas para crer”. 

Estas palavras, se refletirmos bem nelas, podem dizer tudo o que há a dizer sobre a Fé, como um clarão que de súbito ilumina o espírito. 

Mas podem também, havendo tempo e disposição para isso, ser dissecadas em intermináveis frases, textos, teses e livros, por vezes repletos de figuras e demoradas explicações, sustentadas em sofisticados argumentos, de refinada racionalidade. 

Mas as palavras com que expomos a nossa racionalidade nem sempre são suficientes para dizer o que precisamos de saber, nem sempre podem consolar a nossa inconsolável alma humana.

A racionalidade nem sempre nos pode socorrer nas questões da Fé.

Antes de partir para esta aventura, este atrevimento, esta audácia e talvez mesmo esta insensatez de tentar dar uma resposta a uma questão tão difícil como a que motiva este texto, vale a pena deixar uma brevíssima nota sobre a natureza do saber e do conhecimento.

Quando nos interrogamos sobre um qualquer mistério da natureza humana, uma parte de nós exige uma resposta racional e satisfatória. Mas outra parte de nós sabe que não existe uma resposta racional e satisfatória para certas perguntas. E que, por essa razão, ninguém no-la poderá dar. Esta é a razão por que se torna particularmente desafiante responder à questão que aqui coloquei.

Esta nota, juntamente com o que acima ficou dito, justificará o facto de este texto ter uma primeira parte relativamente clara e uma segunda parte com passagens necessariamente obscuras, e que assim permanecerão para sempre.

Que dimensões do conhecimento racional precisamos ter em conta para compreendermos a religião e a Fé?

Para podermos compreender a Fé e o fenónemo da religiosidade precisamos intersetar os três grandes planos de análise seguintes, que abarcam áreas tão distintas como história, biologia, sociedade, cultura, psicologia. Nesta abordagem, embora necessariamente simplificadora, julgo que está o essencial a considerar racionalmente para entender a existência da Fé.

Podemos considerar três ordens de razões.

  1. Razões histórico-biológicas: o plano da evolução biológica da espécie humana.
  2. Razões socioculturais: o plano da organização das sociedades humanas.
  3. Razões intrapsíquicas: o plano da psicologia e do funcionamento da mente humana.

Por si só, nenhum destes planos é suficiente para nos dar uma boa explicação. Só quando cruzamos estes três planos, podemos começar a ter uma ideia aproximada da complexidade que está por detrás do fenómeno da Fé e das religiões.

O primeiro destes planos é aquele que mais desconhecemos, por razões óbvias, por radicar no desenvolvimento da mente humana, desde há muitos milhares de anos, sendo o objeto de estudo de uma disciplina científica conhecida por Psicologia Evolutiva. O último plano é aquele que provavelmente fornece mais informação, mas é também o mais difícil de abordar e entender, por residir nas profundezas da mente humana, em especial nos processos inconscientes que determinam os nossos desejos, as nossas motivações e necessidades, as nossas crenças.

Um triângulo pode ajudar-nos a compreender a Fé

Se usarmos uma metáfora para compreender o fenómeno da religião e da Fé, podemos imaginar um triângulo. Os três vértices do triângulo correspondem aos três planos de análise que acima referi.

De cada vértice parte, para o interior do triângulo, uma feixe complexo de fenómenos. Esses três feixes de fenómenos intersetam-se e entrelaçam-se no interior do triângulo, estabelecendo diferentes tipos de relações. Essas relações, por sua vez, alteram-se de acordo com o espaço geográfico, os povos e as culturas, mas também ao longo do tempo histórico.

É dentro do espaço dinâmico existente no interior desse triângulo, onde se intersetam as três perspetivas ou planos de análise, que podemos compreender melhor a questão da Fé.

Vamos olhar um pouco mais de perto para cada um destes três vértices, ou seja, para cada um dos planos de análise, para compreendermos melhor tão complexa questão.

1. O plano da evolução biológica da espécie humana. A Fé, como qualquer outra manifestação humana, tem uma história. Quando se iniciou? Como se desenvolveu? Porque se desenvolveu? Se imaginarmos diferentes grandes grupos de animais pré-humanos em competição, é relativamente fácil admitir que há uma maior coesão no grupo em que o líder é sobre-humano e sobrenatural.

Um líder humano pode ser contestado, derrubado e substituído. Isso é política. Um líder político é sempre frágil. Um líder sobre-humano não é facilmente substituído, nem facilmente contestado. Se associarmos este facto a um outro que está na origem da evolução e êxito da espécie humana, que é a capacidade de inventar e acreditar em ficções, ou seja, em realidades e entidades fictícias (o dinheiro, os países…), podemos adivinhar que a capacidade de acreditar numa ficção comum, uma entidade, um deus, uma divindade que tudo pode e que tudo explica, possa ter fortalecido as relações dentro dos primeiros grandes grupos humanos, fazendo com que se mantivessem mais unidos e mais coesos na luta por território, por alimentos ou por qualquer outro bem que fosse determinante para a sobrevivência e união do grupo.

Em suma: grupos com crenças comuns, partilhadas, são mais coesos, aumentando as suas chances de sobrevivência e, por isso, de reprodução.

Por outro lado, ao nível individual, ao adquirir a capacidade de ter consciência e de se interrogar sobre si e o mundo, os humanos primitivos sentiriam necessidade de procurar respostas para enfrentar o desconhecido e o medo, uma vez que a certa altura do seu desenvolvimento ganharam a capacidade de entender, de perceber o mundo. Com isso, também a consciência de si, da mortalidade, da inevitabilidade da morte. Acreditar numa existência que transcende a existência terrena dá alento, conforto e consolo a uma “alma” que pouco a pouco ganha consciência de si e do mundo.

2.O plano da organização das sociedades humanas. Este é o plano de análise que é mais vezes referido em qualquer estudo sócio-histórico sobre, já não da origem e do porquê da Fé, mas antes sobre a função da religião e da Fé. Ao estabelecer normas, práticas e valores comuns, a religião promove a coesão social. Ajuda também a construir um quadro moral e ético para guiar o comportamento. Por outro lado, as estruturas religiosas podem também facilitar a entreajuda e a consciência coletiva, contribuindo para a ordem social.

Sabemos que as sociedades humanas se constroem sobretudo em torno de narrativas e ficções, mais do que em torno de factos ou de realizações materiais. A religiosidade, enquanto norma social, fornece um quadro de referência e um sentimento de pertença coletivo que a muitos traz conforto e satisfação. Em suma, as narrativas e práticas religiosas fortalecem o tecido social e oferecem às pessoas um meio através do qual podem navegar na complexidade da existência humana.  

3.O plano da psicologia e do funcionamento da mente humana. A Fé oferece uma estrutura que permite dar um certo sentido ao mundo, ainda que essa estrutura se fundamente numa ficção, numa narrativa inventada e construída ao longo de centenas de anos.

O facto de se tratar de uma ficção não retira poder à narrativa. Ao ajudar-nos a dar um sentido à vida, a religião é um consolo. Estudos mostram que as pessoas que têm Fé são mais felizes. Dá mais felicidade viver a ilusão de que a vida tem um sentido, um propósito, do que admitir que não o tem e que é preciso que sejamos nós a construí-lo, por vezes arduamente, à custa do sacríficio de percorrer um caminho interior que é só nosso, inexplorado, mas uma vez construído, inexpugnável. Aceitar a vida como ela é, na sua crueza, é muito mais difícil.

O caminho da autodescoberta, só possível com a espiritualidade, é mais difícil do que o da religiosidade, o da “entrega” e o da Fé num deus ou divindade. Embora muitos dos valores e princípios ligados à religiosidade sejam partilhados com os da espiritualidade, trata-se de coisas bem distintas. A espiritualidade tem que ver com perguntas (as perguntas que passaremos a vida inteira a fazer pelo facto de o mundo ser tão fascinante e haver tanto por descobrir) e a religiosidade tem que ver com respostas (as respostas escritas nos livros sagrados).

A religiosidade é a descoberta de um Deus em que se acredita, enquanto a espiritualidade é a autodescoberta de si e o fascínio por aquilo que no Mundo está ainda por descobrir, por conhecer.

Mas não só em comunidade acontece a Fé e a religiosidade. Ainda que desligada das práticas da Igreja, a comunicação religiosa e direta com um deus em que se acredita facilita também a projeção, a idealização, a identificação de nós mesmos com valores em que acreditamos, como o Bem, o altruismo ou a compaixão.

Feita uma caracterização breve dos três planos, há que dizer que as relações entre eles se vai tranformando ao longo dos tempos, em resposta às mudanças internas e externas a este triângulo.

As diferentes e complexas formas como estes três planos se intersetam oferecem inúmeras abordagens. Por exemplo, os recentes escândalos dentro da Igreja estão certamente a alterar significativamente as relações entre os dois últimos planos acima referidos, um pouco por todo o mundo ocidental. Há estudos que mostram que milhões de pessoas abandonaram a sua Fé, na sequência dos escândalos que envolvem a Igreja em atos de pedofilia.

Para que serve a Fé?

Há inúmeros fenómenos relacionados com a Fé cuja explicação ou compreensão pode ser apenas encontrada dentro do triângulo acima referido.

Um aspeto relacionado com a religião e a Fé, diferente de saber quando, como e porque existe, é saber como é utilizada. Ao longo dos tempos, a religião e a Fé foram usadas sobretudo para fins políticos, sobretudo pela instituição Igreja. Muitas vezes, foram e ainda são meros mecanismos de controlo das pessoas através de sentimentos como o medo, a culpa e a vergonha. E esses mecanismos de manipulação assentam em particularidades do funcionamento da mente humana que são relativamente simples.

Alguém está a observar-te, por isso é melhor seres bom e fazeres o bem; se não o fizeres, serás castigado (manipulação baseada no medo).

Agiste mal e por causa disso algo de mau vai acontecer (culpa); por isso, deves sentir-te mal (vergonha).

A religião e a Fé estão, por isso, ligadas a alguma forma de manipulação e de controlo.

É também na interseção destes planos que encontramos a explicação para a intolerância religiosa ou fenómenos extremos como os dos radicais islâmicos que levam a cabo assassínios ou execuções em nome da Fé. Não se trata de um fenómeno que possa ser explicado com recurso exclusivamente ao plano de análise das motivações psíquicas ou com recurso exclusivamente ao plano de análise social/cultural. É na interseção destes planos que podemos começar a explorar e desvendar o que estará na origem desses fenómenos.

É ainda na interseção destes planos que podemos compreender um pouco do que se passa em certas regiões do mundo, embora com questões políticas mais complexas à mistura, relacionadas com o sentimento de independência política, de perda de território e de desenraizamento, como sucede com organizações como o Hamas, em Gaza, que combinam a vertente militar e política com a vertente ideológica e religiosa, conseguindo deste modo controlar e manipular toda uma população, fazendo do extremismo um modo de ação que é apresentado como sagrado, tal como o eram as ações militares e religiosas nas cruzadas.

O uso da religião e da Fé como instrumento de mobilização e legitimação da ação política é, por si só, todo um intrincado processo a explorar e que dura há centenas, se não milhares, de anos.

A Fé é um instrumento tanto de mobilização quanto de manipulação, também em outras áreas da existência humana, em que estão presentes outros tipos de “fé”. É bom para alguns que as pessoas mantenham a fé, porque sem fé não há medo. E sem medo não há manipulação nem controlo. E onde há controlo e manipulação não há liberdade. É por isso que a verdadeira liberdade exige ausência de ilusões, quer as ilusões provenientes da Fé e da religião, quer as ilusões provenientes de outras vertentes e setores da sociedade humana.

Nem sempre as respostas racionalmente sustentadas são as que mais nos consolam.

Porque temos Fé? O que leva tantos milhões de pessoas a acreditar fervorosamente num certo Deus e a professar uma dada religião? Por que razão há quem mate e morra por causa disso? Em que lugar da existência humana (chamemos-lhe espírito, alma ou outra coisa qualquer) residirá esse apelo tão forte, tão marcante e para muitos, aparentemente, tão irracional?

Muitas vezes, para pensarmos mais claramente sobre os fenómenos mais complexos, a melhor abordagem é fazermos uma analogia com outros fenómenos semelhantes, mas menos complexos. Outras vezes, a solução é “partir” esse fenómeno complexo em outros fenómenos mais simples; outras vezes ainda, a melhor abordagem é percebermos como funcionava esse mesmo fenómeno antes de se ter tornado tão complexo. 

A Fé é o consolo do espírito

Por vezes, temos tendência a acreditar que tem de existir algo de grandioso e de infinitamente complexo que possa explicar a essência da nossa humanidade. Essa tendência, por vezes, concretiza-se na Fé. 

Porque buscamos nós, humanos, essa outra Fé, para além daquela mais simples que têm outros animais e que consiste em ter fé em encontrar a próxima refeição e o próximo parceiro para acasalar e assim poderem sobreviver?

Ao contrário dos outros animais, e apesar de haver muitas exceções, nós, humanos, geralmente sabemos que não sabemos. E  quando aquilo que não sabemos é infinitamente complexo, também ao contrário de outros animais, nós importamo-nos com isso. 

Sentimo-nos infinitamente pequenos perante a colossal quantidade de informação que nos falta e receamos perder-nos como água na areia. A Fé é a resposta que nos salva. Como temos uma vaga ideia do quanto não sabemos e como nos custa viver no humilde casulo da nossa ignorância, pensamos: tem de haver alguma coisa; tudo isto tem de ter um sentido, não podemos andar aqui para nada; tem de haver alguém, alguma entidade superior, algum mistério que explique tudo isto. Isto tem de ter um sentido, isto tem de fazer sentido. 

Pensamos deste modo como se algures, no Mundo, existisse uma luz que pudesse aclarar e explicar tudo, restando-nos apenas encontrá-la.

O desconhecimento e a dúvida são lugares que dão medo

Encarar o desconhecimento que temos de certos fenómenos respeitantes à natureza humana é como entrar num lugar frio, desconhecido e escuro. Dá medo! Uma parte de nós deseja que se acenda uma luz que iluminetudo, que nos sossegue e nos dê finalmente uma explicação, uma solução, uma resposta para um dado problema ou mistério.

Mas essa luz é uma quimera. As respostas serão sempreprovisórias e parciais. Se não estivermos dispostos a aceitar isto, não estaremos preparados para conhecer.

Para iluminarmos e conhecermos esse lugar desconhecidoque queremos conhecer e onde queremos entrar, não existe uma lâmpada única que possamos acender, que subitamente revele por inteiro esse espaço de não-saber. Não existe essa luz a que possamos chamar “verdade”. Não existe essa lâmpada que tudo ilumina e tudo revela. 

Podemos apenas  acender tochas, apontar lanternas que tenhamos nas mãos. São esses os instrumentos do saber, da racionalidade humana e da ciência. É com esses instrumentos que podemos romper o véu escuro da ignorância. Tochas, lanternas. Cada uma delas iluminando e revelando um pequeno recanto desse lugar que queremosconhecer. Todas revelando aspetos diferentes, todas com diferentes perspetivas, todas com a sua verdade parcial.Como se entrássemos numa caverna escura, tateando, sem nada enxergar. É assim que se entra no desconhecido do mundo. Depois de reunirmos  as diferentes verdades parciais que estas luzes nos revelam, podemos finalmente começar a enxergar, começar a conhecer.

A racionalidade não chega a todo o lado

Se não dispusermos de tempo ou de espaço mental para iluminarmos os diferentes recantos do que queremos conhecer, o caminho mais fácil é ter Fé.

Recordemos as palavras do poeta brasileiro: “Há  muitas razões para duvidar e uma apenas para crer”. 

É bom refletir demoradamente na mensagem do poeta brasileiro, porque muitas vezes as palavras dos artistas e dos poetas dizem de forma intuitiva, abreviada e simples aquilo que o discurso racional demora muito tempo a dizer, e de forma mais complexa, mas nem por isso mais eficaz, em especial quando se trata de consolar a inconsolável alma humana. 

Por vezes, a poesia, e até mesmo as formas não verbais de expressão artística, como a pintura ou a música, podem mesmo dizer aquilo que a racionalidade não poderá nunca ambicionar dizer. 

Claro que para admitirmos isto que acabo de dizer temos de admitir também que o discurso racional não é a única forma de aceder ao conhecimento do mundo. Temos de admitir que a racionalidade e, em especial, a linguagem é uma luz que não chega a todo o lado. Como dizia um conhecido filósofo da linguagem austríaco, Ludvig Wittgenstein, citado de memória: quando as palavras não servem para dizer o que queremos dizer, a solução é apenas uma: fazermos silêncio. 

A compreensão pode surgir da racionalidade, mas o entendimento resulta do silêncio. E o silêncio aclara o espírito de um modo que nenhum ruído do mundo pode fazer.

É natural que assim seja, porque a racionalidade humana é relativamente recente, se a compararmos com essa outra capacidade humana, bem mais antiga, de sentir e produzir sentido a partir da consciência integradora de nós mesmos e do mundo, que é de onde provém também a poesia e a arte.

O modo como estas reflexões se relacionam com a questão da Fé não é fácil nem imediato. 

A Fé está por vezes ligada à própria vida

Para muitos, a Fé é uma questão vital, ou seja, uma questão de vitae/vida. Ou de morte. E é por isso que vivem para ela. É por isso que morrem e matam por ela. 

Para esses, a Fé é uma questão de vida, por se tratar de um sentimento que tem a mesma origem que a própria vida: o progenitor. Progenitor é aquele que nos gera. Progenitor é uma palavra da mesma família de gene, génese e genética. Na Fé cristã, por exemplo, Deus é o pai, o progenitor todo-poderoso. E Maria é a mãe, a progenitora que concebe sem pecado. 

Para esses, ter Fé é uma questão vital sobretudo porque se trata de uma predisposição do corpo e do espírito que está umbilicalmente ligada à fonte da vida, à razão de existir, o progenitor: o pai e a mãe. 

Ter Fé é ter o colo de uma mãe ou de um pai. É um prazer e um consolo simples que não se explica. Aninhamo-nos na Fé como nos aninhamos num colo. Sorrindo. Ou dormindo. Ou ambos. 

Não é por acaso que encontramos frequentemente um beneplácito sorriso nos lábios e nos olhos dos crentes. Se lhes perguntarmos pela sua Fé, olham-nos incrédulos, como se fizéssemos uma pergunta vã, ou tola. A Fé não se questiona. Ou se tem ou não se tem.

Quando fazemos esta leitura dos mecanismos da Fé, torna-se mais fácil perceber que a Fé pode ser um mecanismo simultaneamente irracional e umbilical: entregamo-nos a ela como se fôssemos órfãos sem que nos morresse nem pai nem mãe.

Não nos deve surpreender a irracionalidade de tal mecanismo. O mesmo sucede com a ligação umbilical aos nossos progenitores. A ligação aos nossos progenitores não é nem pode ser racional. Como poderia sê-lo, se é umbilical?

É por isso que quando perguntamos a alguém: Porque crês, porque tens Fé?, obtemos muitas vezes um simples sorriso benevolente. Simultaneamente infantil e sábio. Um sorriso semelhante ao que obteríamos de uma criança de colo se lhe perguntássemos: “Porque gostas do colinho da mãe ou do pai?”. 

Ter Fé é acreditar que há alguém que nos aconchega e dá colo. Mas ter Fé é também acreditar que há alguém que nos castiga, como sucede com a mãe e o pai. 

Colo e castigo são duas faces da mesma moeda, do mesmo consolo. Se vou ser castigado, posso permitir-me não ser totalmente responsável pelas minhas ações. Ora, isto é um consolo. 

É assim que o castigo faz parte da Fé. É por isso também que por vezes o castigo faz parte do amor. Há quem não suporte não ser castigado quando entrega a outrem a responsabilidade pela sua própria felicidade.

Porquê? Porque não ser castigado é o que nos acontece se não tivermos pai ou mãe que se importe connosco e nos queira ensinar ou corrigir. 

É também por essa razão que o Bem e o Mal estão inelutavelmente ligados à Fé. 

Questionar a Fé, provocar o riso

Há quem afirme que com a Fé não se brinca, com a Fé não se mexe, o que é obviamente um exagero. Essa Fé com a qual não se brinca e com a qual não se mexe é muito perigosa, como se sabe, porque reside em locais esconsos da natureza humana e dá origem a guerras muito sangrentas. 

Desde que haja respeito e vontade de saber, podemos brincar com tudo, questionar tudo. E também a Fé.

Seja o que for em que acreditemos, se não vigiarmos bem o nosso acreditar, se não o testarmos periodicamente, ele tende a ser dogmático. É exatamente o que acontece quando já não queremos, ou já não podemos, questionar as nossas convicções. 

O que poderemos estar a esconder quando já não queremos questionar a nossa Fé? O que quer que seja, isso virá à tona quando menos esperarmos ou quando menos desejarmos. Questionar as nossas convicções torna-nos mais fortes. O que não puser fim às nossas convicções, torná-las-á mais fortes. Questionemo-las, então. 

Quer a brincadeira e o riso, quer o questionamento sistemático são modos legítimos de reconhecermos que estamos em permanente dúvida, em permanente ignorância; são também modos de legitimarmos as poucas verdades que vamos provisoriamente encontrando.

É a dúvida que guia a ciência e o saber. Enquanto os que duvidam fazem perguntas, os que acreditam têm respostas, que encontram nos livros que guardam os segredos da Fé.

Os primeiros acreditam que é preferível lidar com questões a que ainda não conseguem dar resposta, do que ter respostas que já não conseguem questionar.

Para os últimos, o permanente estado de ignorância e de dúvida que assalta os primeiros resolve-se com o mistério da Fé. 

Metáforas litúrgicas, fantasias e mecanismos de Fé

Na Fé cristã, o mistério diz respeito a uma verdade que transcende a compreensão humana. E por isso essa verdade é misteriosa. Se transcende a compreensão humana, nada há a compreender. Por nós, que somos humanos. Nada há a saber. O que se sabe, sabe-se dos livros sagrados, a fonte de onde brotam os mistérios da Fé. 

Mistagogia é o nome que se dá ao universo de práticas e atitudes que podemos empreender para sermos conduzidos ao mistério da Fé. Na liturgia da missa cristã, por exemplo, o mistério está em fazer do pão e do vinho o corpo e o sangue de Cristo. É uma metáfora, claro. E boa. As metáforas são em si mesmas poderosos mecanismos de Fé. A Fé na existência de uma certa unidade do mundo, uma unidade que permite acreditar que uma dada realidade, mais do que representar uma outra realidade, pode ser essa outra realidade. Uma metáfora que representa o poder da transmutação. Este é o poder e o mistério da Palavra: o Verbo ilumina a razão no escuro da noite e acende a Fé na incerteza do mundo.

A Fé é bonita e assenta-nos bem, porque é tipicamente humana. Se pensarmos bem, temos de reconhecer que é preciso ter muita imaginação para acreditar. Ao contrário do que possa parecer, é necessário não levar a vida muito a sério para podermos ter Fé. Porque se levarmos a vida a sério, à letra, vivendo-a como ela é, em toda a sua complexidade, no seu movimento ora grandioso e intocável, ora doloroso e cruel, não teremos tempo a perder, porque todo um mundo fantástico e mais misterioso do que a Fé se abrirá perante o nosso olhar, entregue aos desígnios insondáveis da Mãe Natureza.

Mas a Fé e os dogmas são tentadores. E são-no por dois motivos. Por um lado, são um descanso, porque evitam as chatices da dúvida. Por outro lado, sendo um descanso, são geradores de paixões, porque nos agarramos mais facilmente ao que damos como certo, como o colo e o amor do pai e da mãe. Ou como as brincadeiras e as fantasias cujas regras nós próprios inventamos.

Da mesma forma que podemos colocar um dispositivo nos olhos, ao estilo de óculos, que nos permite ver a realidade aumentada, também a Fé é uma espécie de lente que nos permite ver a realidade aumentada: deuses e anjos, céu e inferno.

Tal como as crianças se envolvem seriamente nas suas brincadeiras, também os crentes se envolvem seriamente nas suas fantasias e na sua Fé.

Na verdade, tal como não o faríamos com crianças absortas nas suas brincadeiras, não devemos tocar-lhes no ombro e dizer: “Psiu, olhem que isso é apenas uma fantasia!”.

Os humanos, na sua capacidade de acreditar e de fingir (o que vai dar ao mesmo, passado algum tempo), são altamente inflamáveis. Queima-os o fogo das paixões, feitas desse combustível gasoso que são as coisas inventadas, os sonhos, a imaginação e a Fé.

Os humanos são uns fingidores, não são apenas os poetas. Levam a vida a brincar, perdidamente mergulhados nas suas ficções. 

Já os chimpanzés e outros símios levam a vida mais a sério: nenhum chimpanzé aceitaria trocar uma boa sesta na copa de uma árvore, aquecido pelo calor de uma tarde de verão, por um cacho de bananas, se estas viessem a ser-lhe entregues apenas quando, depois de morto, chegasse ao céu.

Mas os humanos não pensam assim. A sua imaginação é quase infinita. Alguns fazem muitos sacrifícios na vida terrena em troca de um lugar ao sol depois da morte, não na copa de uma árvore, mas na tranquilidade infinita desse lugar inexistente que é o céu. 

Pela parte que me toca, prefiro ter uma vida assim-assim, antes de morrer. Depois de morrer, não me importo nada de ter uma existência miserável. Ainda que venha a ser dolorosa, acho que me aguentarei razoavelmente e acabarei por safar-me.

Mas cada um sabe de si.

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