
Os preconceitos não são maus.
Pelo contrário, eles representam um dos mais bem-sucedidos mecanismos cognitivos desenvolvidos no decurso da evolução da mente humana.
Habitualmente, falamos em preconceitos como se não os devêssemos ter.
Mas não é assim. Eles não são apenas compreensíveis e justificáveis. São também necessários e indispensáveis.
O sentido negativo, pejorativo, que atribuímos aos preconceitos generalizou-se. Mas injustamente. O prefixo existente nesta palavra colou-se à forma de base (pré-conceito) de tal modo que dificulta a perceção do significado efetivo da palavra e do conceito que representa. O significado é apenas este: um conceito pré-concebido, pré-existente. Um conceito que existe na nossa mente antes mesmo de avaliarmos racionalmente um qualquer facto, objeto ou pessoa que se nos apresente na sua singularidade. É isto um pré-conceito.
Mas, como disse no início, um pré-conceito não é necessariamente mau.
A presunção de que esta palavra está sempre ligada a algo que é negativo ilustra bem o facto de cada língua específica, de algum modo, configurar também um modo específico de “ver o mundo”. Cada língua, enquanto materialização verbal da cultura de um dado povo, reflete a mundividência desse povo: cada língua recorta a realidade de um modo muito específico. Podemos assim falar de uma mundividência anglo-saxónica, hispânica… etc.
Mas este é um assunto para outro tópico.
Neste tópico, para mostrar mais facilmente o ponto de vista que vou defender e assim contribuir para a reabilitação semântica dos pré-conceitos, vou grafá-los assim, com o prefixo bem separado por um hífen. Pré-conceitos. E já veremos de seguida porquê.
Estereótipos e preconceitos
É claro que há pré-conceitos que são injustos, falsos, prejudiciais. Muitos deles podem minar diferentes espécies de interações sociais e até mesmo o saudável funcionamento de sociedades inteiras, sendo um obstáculo poderoso para o avanço civilizacional e o desenvolvimento da espécie humana.
Os pré-conceitos surgem frequentemente como resultado de estereótipos culturalmente construídos. Alguns provenientes da matriz religiosa em que nascemos (no nosso caso, a matriz resultante da moral judaico-cristã), outros estereótipos são provenientes do meio sociocultural em que crescemos.
O que são estereótipos?
Os estereótipos não são mais do que a simplificação de uma certa ideia, um certo conceito, para que seja mais fácil entendê-lo e para nele podermos incluir o maior número possível de ocorrências específicas, singulares, com que nos deparamos no mundo em que vivemos. Já explico melhor esta ideia.
Por comodidade, com base também na lei do menor esforço que opera em todas as áreas do comportamento humano, construímos mentalmente certas categorias, relativamente planas e simples, que operam como generalizações que nos permitem entender melhor o mundo e as pessoas que nos rodeiam.
Essas categorias são construídas desde que nascemos e servir-nos-ão para darmos estrutura e significado ao mundo.
Perante ocorrências singulares, pontuais, com que nos deparamos (situações, objetos, pessoas…), arrumamos essas ocorrências singulares nas respetivas categorias que previamente concebemos, em resultado da simplificação e generalização prévia que fizemos.
Assim se explica que, por vezes, as categorizações que fazemos das manifestações singulares que experienciamos (factos, objetos, pessoas) sejam relativamente pobres e injustas, resultando em comportamentos e atitudes que refletem preconceitos negativos. Estes são os pré-conceitos “maus”, que nos prejudicam.
Mas o que quero aqui realçar neste tópico é que os pré-conceitos, em geral, não são maus: são apenas a expressão de um mecanismo não só necessário, mas muito útil.
Pré-conceitos e lei do menor esforço
Todos recorremos a diferentes fontes de ideias pré-concebidas, que utilizamos quer para organizar a nossa vida mental e dar rumo às nossas ações, quer para avaliar e, muitas vezes, julgar as ações dos outros.
O pré-conceito é uma estratégia mental de grande valor, se pensarmos na economia de meios, energia e esforço que representa.
O pré-conceito permite-nos evitar a formulação, de raiz, de novos conceitos e ideias, sempre que nos confrontamos com situações, objetos ou pessoas singulares, específicas, mas que o nosso cérebro nos diz serem semelhantes a outras, podendo ser “arrumadas” numa certa categoria pré-existente.
Recorrendo ao pré-conceito, o nosso cérebro poupa uma energia imensa: poupa o esforço de construir novos conceitos, novas ideias, novas categorias, novas imagens mentais de cada vez que nos confrontamos com novas situações, objetos ou pessoas que se nos apresentam aos nossos sentidos, que atravessam a nossa vida, quando pode “arrumá-las” em categorias pré-existentes que a nossa mente já construiu.
Repito: perante cada nova ocorrência com que o nosso cérebro se depara (situações, objetos, pessoas…), o nosso cérebro integra-as em categorias pré-existentes, já construídas antes, evitando o esforço de ter de construir mentalmente uma nova ideia, um novo conceito, cada vez que se depara com cada novo item, cada nova ocorrência, evitando o trabalho de as conhecer na sua singularidade.
Um mecanismo que opera de modo semelhante ao dos pré-conceitos é posto em ação sempre que o nosso cérebro cria os automatismos psicofisiológicos necessários para realizar facilmente algumas tarefas que temos de levar a cabo regularmente. Por exemplo, para que não tenhamos de despender qualquer esforço mental quando conduzimos o automóvel.
Quando conduzimos, não precisamos de conceptualizar todos os passos, todos os gestos, toda a cadeia de procedimentos que são necessários à condução, ao contrário do que sucede quando estamos a aprender a conduzir, situação em que o nosso cérebro ainda não apreendeu todos os procedimentos associados ao ato de conduzir e necessita de despender um esforço considerável para saber o que tem de fazer em cada momento nessa operação global relativamente complexa que é conduzir.
Pré-conceitos e evolução cognitiva
Do ponto de vista da sobrevivência e supremacia da espécie humana, é fácil entender a importância que um mecanismo cognitivo como o pré-conceito pode ter, pela poupança de recursos energéticos que representa.
Já vimos num outro tópico que os recursos energéticos que a cognição gasta são muitíssimo significativos. Se uma serpente se apresenta à nossa frente, reagimos imediatamente, defendemo-nos ou fugimos: pouco importa que posteriormente se verifique que, afinal, se trata de uma serpente amistosa, sem qualquer perigo. Não nos importa a natureza específica, singular, de cada serpente em particular, na sua singularidade, importa-nos o pré-conceito que construímos da serpente.
A nossa reação é totalmente preconceituosa: somos guiados pelo pré-conceito inscrito no lume brando da evolução cognitiva da nossa espécie. Ao reconhecer certas situações como potencialmente perigosas, podemos reagir muito rapidamente, de forma a preservarmos a nossa segurança.
O mecanismo por detrás dos pré-conceitos de que falámos antes, é em tudo semelhante, mas opera não ao nível biológico, mas ao nível sociocultural.
Neste sentido, podemos agora olhar para os pré-conceitos como um instrumento mental útil e necessário para a nossa racionalidade, na medida em que nos permite mais rápida e facilmente categorizar o mundo em que vivemos e arrumar as coisas nos seus lugares.
Ao categorizarmos o conceito de árvore, sabemos que este conceito abrange um sem-número de elementos que nunca vimos antes, mas que, se os virmos, rapidamente conseguimos “etiquetar” como sendo uma árvore. Para que tal suceda é necessário termos previamente arrumado o pré-conceito de árvore que nos permite dizer: sim, isto é uma árvore.
De cada vez que olhamos para um novo objeto que percecionamos como sendo uma árvore, uma árvore nova, que nunca víramos antes, não necessitamos de conceptualizar todo o conjunto de características necessárias para que esse objeto possa ser classificado como “árvore”: tem raízes? tem folhas? tem tronco? tem grandes dimensões? etc. De forma automática, o nosso cérebro integra esse objeto na categoria “árvore”, sem que essa integração, essa arrumação, esse episódio de organização mental do mundo que nos rodeia, nos exija qualquer esforço.
O pré-conceito é a estratégia que utilizamos para perceber, por exemplo, que uma árvore que vemos pela primeira vez (vamos supor esta aqui abaixo), diferente de todas as árvores que víramos até então, é, também ela, uma árvore. Dizemos rapidamente que é uma árvore, mas de facto não é. O que nos permite dizer que aquilo que ali está é uma árvore é o facto de termos interiorizado um certo pré-conceito do que uma árvore é. O que ali está é apenas uma criação de uma estrutura que categorizamos como sendo árvore.

Este fenómenos mostra bem o cuidado e vigilância que temos de pôr em ação quando percecionamos o mundo: sem querer, os nossos pré-conceitos podem sobrepor-se à razão, podendo fazer-nos ver e sentir realidades inexistentes. O pré-conceito é uma espécie de pré-cozinhado mental, mas que temos de levar ao microondas da razão.
Pré-conceitos e mecanismos neuronais
Tudo o que pensamos, desde as pulsões mais básicas até aos desejos mais elaborados, passando pela expressão subjetiva das emoções (a que damos o nome de sentimentos), tem origem numa complexa rede de impulsos eletroquímicos que ocorrem nas redes neuronais existentes no nosso cérebro.
Podemos dar a esses mecanismos os nomes que quisermos, amor, amizade, compaixão, raiva, ódio, calculismo, frieza, medo… enfim, todos eles têm em comum o facto de ocorrerem nessa rede de biliões de conexões eletroquímicas encerrada no escuro do nosso crânio. É lá que se desencadeiam, é lá que têm origem e ocorrem todas as emoções e sentimentos humanos.
Como se construiu esta rede complexa de biliões de conexões e “estradas” neuronais inscritas no nosso cérebro?
Os biliões de conexões que fazem de nós o que somos são o resultado das experiências que cada um de nós vivenciou, desde os primeiros anos de vida e ao longo de toda a sua vida.
Do mesmo modo, os pré-conceitos de que falámos atrás são percursos neuronais que se instalaram no nosso cérebro através de mecanismos psicossociais, isto é, por força da influência exercida pelo meio em que vivemos, designadamente as instituições e os códigos sociais e culturais em que a nossa vida se inscreve.
Quais são as vantagens neuronais dos pré-conceitos?
Pelas razões atrás apresentadas, os percursos neuronais que constituem os pré-conceitos são fluxos de corrente eletroquímica que exigem um dispêndio de energia muito menor do que aqueles que são exigidos pelo raciocínio complexo, que ocorre maioritariamente no córtex pré-frontal. A razão para que isso aconteça é evidente: os primeiros instalam-se sem grande esforço, fruto de mecanismos de motivação externa, como a educação e outros mecanismos promovidos pelo meio sociocultural. Por sua vez, os mecanismos que constituem o raciocínio complexo exigem maior esforço neuronal, maior dispêndio de energia eletroquímica, por serem construções pessoais subjetivas e singulares, exigindo conexões e percursos neuronais novos, que desafiam as conexões existentes, os percursos neuronais instalados. Os percursos da construção do conhecimento racional implicam gastos energéticos bem superiores aos dos pré-conceitos. Diga-se de passagem que esta maior facilidade de processamento neuronal, e consequente poupança energética, explica também parcialmente fenómenos como as superstições, as mitologias, as magias, as feitiçarias, as crendices e a fé, em geral.
Os pré-conceitos são condenáveis?
É relativamente natural que, a exemplo do que sucede com outros organismos, o ser humano tenha tendência a despender o menor esforço possível nos processos mentais (eletroquímicos) que ocorrem no seu cérebro, a estrutura mais complexa do seu organismo.
É por isso que encontramos mais facilmente pessoas capazes de julgar “levianamente” do que pessoas capazes de julgar criticamente. Julgar com base em pré-conceitos, com base em padrões neuronais pré-instalados, muitas vezes por motivação externa, é muito mais fácil do que pensar criticamente, porque esta última atividade obriga a um dispêndio de energia bem maior do que a primeira.
Os julgamentos baseados em pré-conceitos recorrem, por regra, a fluxos eletroquímicos pré-instalados na nossa rede neuronal, não exigindo do nosso cérebro uma análise complexa dos dados psicofisiológicos em jogo, mas apenas o reconhecimento desses padrões neuronais já instalados.
Se quisermos fazer uma analogia, a facilidade é comparável a comprar uma casa com pré-instalação de aquecimento central.
Será bom livrarmo-nos de preconceitos?
Se, por um lado, como vimos, podemos dizer que os pré-conceitos são úteis, na medida em que nos facilitam a vida mental, por outro lado, há pré-conceitos que, como se sabe, são profundamente injustos e constituem um obstáculo ao progresso e desenvolvimento das civilizações. Destes, é urgente livrarmo-nos ou, pelo menos, temos de estar conscientes de que os temos, para não prejudicarmos ninguém ao colocá-los ao serviço da eficiência energética cognitiva que nos guia (no sentido atrás referido).
Por outro lado, há pré-conceitos que, não sendo negativos no sentido acima exposto, facilitam a organização da vida mental individual e a organização social.
Alguns estereótipos sociais e a moral de inspiração judaico-cristã (a ideia de pecado, de culpa e castigo, de céu e inferno, do bem e do mal…) são dois pilares civilizacionais que desencadeiam toda uma série de pré-conceitos que não são intrinsecamente negativos, muitos deles, bem pelo contrário.

Estes são pilares de onde extraímos muitos dos pré-conceitos que nos governam, normalizando e padronizando comportamentos e sustentando uma mundividência útil para a coesão social.
Desse ponto de vista, as construções sociais, seja qual for a natureza dos seus tijolos (cultural, religiosa, ética, moral…), ao padronizarem valores e comportamentos, esmagando individualidades, pulverizando a densidade singular de cada um de nós, asseguram que cada indivíduo possa contribuir para a regularidade, a consistência e coesão do todo que é o tecido social.
Esta categoria de pré-conceitos, não sendo perniciosos nem injustos, podem, porém, em alguns casos, impedir cada indivíduo de desenvolver livremente a sua singularidade.
A singularidade dá muito trabalho, exige um grande dispêndio de energia, como vimos atrás, pelo que é fácil escolher o caminho energeticamente menos dispendioso.
O pensamento crítico, racional, obriga a encontrar novas conexões eletroquímicas, fluxos neuronais novos, que correspondem a novas redes de sentido, conduzindo muitas vezes a uma reprogramação global, mas também à construção de uma ética pessoal nova, relativamente independente da ética sociocultural mainstream em que crescemos.
A teia social pode ser uma opção em que confortavelmente nos instalamos e ninguém tem nada com isso. Mas pode também constituir uma teia na qual caímos inadvertidamente, como abelha em busca do seu mel, e da qual não conseguimos libertar-nos. Este será tema para um outro tópico. E a missão será libertar a pobre rapariga desta imagem 🙂

