
Se não estamos ao leme de nós próprios, porque somos quem somos? Esta foi a pergunta que ficou suspensa num outro tópico.
Cabe aqui lembrar desde já o que foi dito antes: não há nestes textos qualquer pretensão de dar uma resposta às questões difíceis da vida, mas apenas o objetivo de abrir pistas de exploração, desenhar caminhos, propor roteiros que possam trazer mais interrogações, porque é delas que este lugar vive.
Não estamos ao leme de nós próprios
A interrogação que inicia este tópico (Se não estamos ao leme de nós próprios, porque somos quem somos?) surgiu num outro tópico, a propósito do facto de não sermos nós que decidimos quais são, ou quais devem ser, os pensamentos que atravessam a nossa mente, a cada momento: não somos nós que decidimos o que devemos pensar. Os pensamentos ocorrem sem o nosso consentimento, sem o nosso controlo: não são a expressão da nossa vontade. E no entanto é na mente que está alojado o “centro de comando” do nosso “eu”. Ou no cérebro, para os mais materialistas. Neste tópico, não farei distinção entre mente e cérebro. Esse será tema para outro tópico.
Quando uma torrente de pensamentos atravessa a nossa mente, sem qualquer intervenção da nossa vontade, pensamos: estive a pensar. Mas, se virmos bem, “pensar” não foi algo que “estivemos a fazer”. Não foi uma ação que executamos recorrendo à nossa vontade, não foi intencional. Os pensamentos simplesmente ocorreram, aconteceram. E os acontecimentos, simplesmente, acontecem. Não são algo que possamos fazer. Não têm intenção. Quantas vezes nos surpreendemos a pensar em algo que não desejamos de modo nenhum pensar? Há uma entidade que diz: não penses nisso; e há uma outra entidade que, efetivamente, pensa, quer queiramos quer não, independentemente da nossa vontade. Não há como contornar esta evidência.
Por que razão isto acontece?
Podemos testar a seguinte hipótese. Isto acontece porque esses pensamentos são o produto e a manifestação da atividade de biliões de ligações eletroquímicas que ocorrem a cada instante no nosso cérebro. Está fora do nosso alcance controlar essa atividade. A nós cabe-nos apenas experienciá-la. Quem mais poderia fazê-lo? Mas não tenhamos ilusões, trata-se de entidades distintas: há uma atividade fisiológica complexa situada nos tecidos nervosos que é experienciada subjetivamente por uma entidade que não tem qualquer controlo sobre essa atividade; é esta última entidade que designamos habitualmente por “eu”. Temos de distinguir estas entidades e repetir o que já foi dito antes: nós não somos os nossos pensamentos.
Como podemos então ser nós próprios?
Temos tendência a identificar-nos com tudo o que surge na nossa mente. Com aquilo que designamos por “a nossa voz interior”. Somos encorajados pela cultura vigente para fazer isso mesmo, para seguirmos o nosso coração, para seguirmos o que sentimos: Sê tu próprio. Sê quem és. Segue o teu coração, dizem-nos. Até mesmo quando votamos, pedem-nos que o façamos seguindo o nosso coração, o que sentimos, e não o que é mais racional. Se nos pedissem para votar racionalmente, não iríamos votar sem, pelo menos, conhecermos minimamente os programas dos diferentes partidos. É aliás por isso que o voto universal não é um direito racionalmente fundamentado, mas antes um direito consagrado pelas sociedades como expressão das conquistas humanistas, segundo as quais cada um de nós, seres humanos, no seu íntimo, é um centro de decisão. Pouco importa o modo como cada qual faz as suas decisões. Importa, sim, que faça valer essa decisão. Em democracia, o voto da dona Teresa que vota naquele político simpático e truculento que nem sabe bem o que promete vale tanto como o da D. Margarida, que anda bem informada, assistiu a inúmeros debates e foi lendo o essencial das propostas dos principais partidos políticos. É por isso que em democracia não nos perguntam o que pensamos, mas antes o que sentimos. Só assim se pode admitir que os votos da D. Teresa e da D. Margarida valham o mesmo: resultam ambos da vontade e do desejo livremente expressos de uma mente humana.
Mas regressemos ao tópico.
Se geralmente nos identificamos com a nossa voz interior para gloriosamente podermos dizer “eu quero”, “eu escolho”, “eu decido”, mas, todavia (como vimos), não controlamos essa voz interior, com quem estaremos afinal a identificar-nos?
Tomamos uma decisão e pensamos que ela é a expressão da nossa vontade consciente. Desde a pasta de dentes que escolhemos no supermercado até ao partido político em que votamos. Triunfalmente, dizemos: eu quis, eu escolhi. Mas não é bem assim.
Nos últimos anos, a ciência descobriu, recorrendo sobretudo à imagiologia cerebral funcional, que todos nós tomamos decisões alguns centésimos de segundo antes de sequer termos consciência dessas decisões. Quando dizemos “eu” decidi, isso não é totalmente verdade. Não foi o meu “eu” consciente que tomou a decisão. Custa muito admitir isto, mas têm sido feitas inúmeras experiências e testes científicos que provam que é assim. Quando dizemos “eu quero”, “eu decido”, o nosso cérebro já quis e já decidiu antes de nós. Este é um tema a explorar em outro tópico.
Aos filósofos gregos só era permitido especular
Por vezes, há quem diga: Para quê gastar tempo a pensar nas velhas questões em que já os velhos filósofos gregos pensavam? Mas quando os filósofos gregos que tanto admiramos debatiam tão profundamente estas questões do “eu”, da autodeterminação e do livre-arbítrio não dispunham de dados sobre o funcionamento dessa máquina espantosa de 1500 gramas que produz o “eu”. Hoje, a ciência dá-nos essa possibilidade. E podemos fazê-lo em tempo real. A “imagiologia funcional” tem esse nome precisamente porque permite observar, em tempo real, “como funciona” o cérebro quando toma decisões, entre outras operações que realiza, como desejar, ter medo, arriscar, etc. Que regiões do cérebro se ativam? Que grupos de neurónios entram em ação?
Se tomamos decisões antes mesmo de termos consciência delas, talvez as nossas decisões (essa atividade cerebral que julgamos ser a expressão da nossa vontade) não sejam mais do que a expressão das muitas manipulações a que o nosso cérebro foi sujeito ao longo da nossa existência: a família e os amigos que nos influenciaram, as experiências que tivemos, os livros que lemos, os pensadores ou deuses em que acreditamos e até mesmo as manipulações autoinfligidas, que operamos em nós mesmos, na ânsia de construirmos um “eu” que seja coerente, como já referi noutro lugar.
Quem toma afinal as nossas decisões? Talvez tenhamos de conhecer melhor essa entidade relativamente desconhecida que vive dentro de nós.
Teremos medo de nós próprios?
Já todos certamente pensámos, de um modo ou de outro, na questão que dá título a este tópico (Porque somos quem somos?), mas, a partir de alguma fase da nossa vida, desistimos de o fazer, talvez por pensarmos que não faz sentido pensar em questões que não têm resposta ou solução, ou talvez por considerarmos que são questões próprias da adolescência. Mas se estas são as questões mais desafiantes, mais intrigantes, por que razão desistimos delas tão facilmente? Porque não falamos delas em público, nos almoços e jantares de amigos, nos batizados, nos casamentos e até mesmo nos funerais? Serão questões assim tão enfadonhas? Não creio que seja esse o problema. Não falamos desta e de outras questões existenciais semelhantes porque as consideramos ridículas ou porque receamos parecer nós próprios ridículos falando delas, como se elas nos envergonhassem enquanto indivíduos, como se tivéssemos medo delas. Quando as questões não têm uma solução à vista, não queremos saber delas. Ignoramo-las ou, pior, fugimos delas. Pensamos: ah, isso! E sorrimos jocosamente, triunfantes das nossas certezas.
Vale a pena perder tempo com questões sem resposta?
Vale a pena gastar tempo com isso?, perguntam alguns. Vale a pena perder tempo com essas questões que não têm uma resposta? Quando nos fazem estas perguntas, não vale a pena responder que se trata de questões que dizem respeito à essência do que é a vida humana, não vale a pena responder que essas questões dizem respeito ao que mais nos distingue de outros seres vivos. O que vale a pena é devolver a pergunta com outras perguntas: Vale a pena perder horas a ver novelas? Vale a pena seguir debates sobre futebol? Que respostas obtemos desses debates? E os debates sobre questões políticas? Valem a pena? Ficamos com mais conhecimentos? Obtemos nesses debates verdadeiras respostas às principais questões da vida pública? Claro que algumas opiniões são interessantes, mas, muito frequentemente, esses debates trazem-nos uma complexa e aborrecida dança de interesses pessoais, e não só, expressos de forma mais ou menos explícita, mais ou menos convincente, que não têm outro efeito que não seja o de deixar-nos como um papagaio de papel apanhado entre ventos cruzados.
Onde podemos, afinal, obter as respostas de que tanto precisamos? Na TV, que nos traz as imagens da guerra e dos incêndios e dos escândalos políticos, ao sabor do que estiver a fazer mais audiências? Será que obtemos as respostas de que precisamos nas notícias, apresentadas não pelo interesse informativo que possam ter, mas pelo efeito que possam desencadear nas nossas emoções mais imediatas e primárias?
Não é aí que obtemos respostas.
Talvez o problema não resida, afinal, no facto de as questões existenciais não terem uma resposta. Talvez não seja a necessidade de obter respostas que nos move.
Se as questões existenciais e sem resposta existem e podem ser colocadas, não será melhor enfrentá-las, em vez de lhes virarmos a cara ou fingir que não existem, apenas porque não temos uma solução à vista para elas?
Somos um depósito de acasos
Há questões destas que, se as explorarmos serenamente, nos permitem relativizar a existência e a vida, distanciar-nos do nosso “eu”, libertar-nos da sensação de aprisionamento que ele nos pode impor, e isso pode dar por vezes muito jeito. Quem nunca se sentiu dentro de si como no centro de um remoinho de onde parece impossível sair? Ou como na ponta de uma flecha lançada não se sabe por quem em direção a um alvo que não sabemos qual é?
Estaremos certamente todos de acordo quanto a isto: o facto de a nossa vida ser o que é, de sermos quem somos, deve-se a uma longa série de episódios e acontecimentos que ocorreram, aleatoriamente, uns a seguir aos outros, desde que nascemos até chegarmos onde estamos agora: a família que temos, o trabalho que escolhemos ou conseguimos, a casa onde moramos, a escola onde estudámos, os interesses que fomos construindo, os amigos que fizemos, o parceiro ou parceira com que habitamos.
Foi necessário que ocorresse uma longa série de pequenos episódios, sequenciais e relativamente aleatórios, para que todos e cada um destes aspetos da nossa vida se concretizassem do modo particular como se concretizaram, para que a nossa vida tivesse sido o que foi e seja o que efetivamente é. Basta fechar os olhos e pensar um pouco para percebermos que é assim. Não há dúvida: quase tudo aquilo que efetivamente nos acontece e o que somos é obra do acaso.
Um qualquer pequeno nada, uma pequenina areia caída, inocente, na engrenagem do tempo ou do espaço da nossa vida, um simples “não ter estado ali, num certo local, àquela hora”, um não ter prestado atenção a um qualquer detalhe, um pequenino sopro nesse frágil bater de asas que é a nossa vida, um qualquer destes detalhes teria bastado para alterar radicalmente qualquer uma das dimensões que habitualmente consideramos serem cruciais para definir o que é a nossa vida: a família em que crescemos, os amigos que temos, as escolas que frequentamos, a casa em que vivemos, o trabalho que temos, o parceiro ou parceira com que vivemos.
Cada um de nós é um depósito de inúmeros acasos que se sucedem uns após outros.
Se assim é, perguntemo-nos então: será que algumas pequenas alterações nessa impressionante sucessão de acasos que fez da nossa vida aquilo que ela é, algumas ligeiras e casuais variantes que tivessem alterado o rumo dessas dimensões que definem inelutavelmente a nossa vida, será que essas pequenas alterações seriam suficientes para mudar a natureza de quem verdadeiramente somos?
Somos tentados a disparar uma resposta rápida a esta pergunta: “Não, não! É claro que não! Eu seria sempre eu. Eu e a minha essência, eu e o meu espírito, eu e a minha alma. Eu e a minha forma muito específica de ver a vida e o mundo. Se os acasos da vida tivessem sido outros, apenas o meu percurso teria sido diferente. Mas eu, obviamente, seria sempre eu.”
Se pensarmos bem, é isto que todos sentimos intimamente, não é? Poderíamos ter tido outra família, ter vivido noutra cidade, ter frequentado outras escolas e ter tido outros amigos e outra profissão, mas esse “eu” que está dentro de nós permaneceria. Não é isto que pensamos?
Quantos “eus” cabem em nós?
Mas pensemos melhor: será que é mesmo assim? Será que esse outro ser, que tivesse feito o percurso de outra vida, sendo ele o que viesse a ser, em resultado dessas diferentes experiências, esse ser construído sobre uma outra sucessão de acasos, será que esse outro ser teria uma essência, um espírito, uma alma (chamemos-lhe o que quisermos) semelhante à minha, à que tenho aqui e agora, tendo eu tido as minhas muito específicas experiências, tendo a minha vida sido o que foi, sendo esta a única vida que conheço, sendo eu quem sou? Será que esse outro ser, que, fruto de outros acasos da vida, tivesse seguido outro rumo, tivesse vivido noutro lugar, tivesse tido outra educação, outros interesses, outros amigos, outro trabalho, outra casa, outro parceiro/parceira, será que esse ser seria, na essência, semelhante a este “eu”, aqui e agora?
Ou será que é precisamente a conjugação de uma longa série de acasos que faz com que “nós” sejamos “nós”, e não sejamos “outro” qualquer”? Não será que é esse longo percurso relativamente aleatório que coube a cada um de nós percorrer que faz com que sejamos precisamente aquilo que somos? Claro que é.
Cada um de nós é o que é, afinal, apenas, por mero acaso? Fruto de uma longa série de acasos, externos a nós e à nossa vontade? Claro que sim.
Mas será que o facto de a nossa vida ser construída sobre esta série impressionante de acasos nos retira autodeterminação, livre-arbítrio? Será que isso significa que cada um de nós está destinado a cumprir não mais do que o “destino” relativamente aleatório que lhe coube percorrer? Cada um de nós está destinado a ser não mais do que uma folha frágil perdida nos ventos e acasos da vida? Sem autodeterminação nem livre-arbítrio? Claro que não. Embora haja toda uma corrente de pensadores chamados deterministas que acham que sim.
Vejamos novamente esta questão, agora de mais perto ainda: mesmo nascendo na mesmíssima família em que cada um de nós nasceu (o que em si mesmo é já fruto do acaso), suponhamos que, por um mero capricho do destino, por necessidade dos nossos progenitores, acabámos por nascer ou morar noutra cidade, mais a norte ou mais a sul; depois, por um mero acaso também, durante a infância, fizemos outros amigos, que nos contagiaram com outros interesses; suponhamos que tivéssemos lido outros livros, visto outros filmes, vivenciado outras experiências, frequentado outras escolas, onde iríamos adquirir talvez hábitos e interesses diferentes e onde conheceríamos outras pessoas; suponhamos ainda que, mais tarde, teríamos um trabalho e uma profissão diferentes, onde teríamos conhecido outras pessoas e adquirido outras competências, novos interesses, novos hábitos, talvez.
Será que, depois de todas estes acasos e desvios, depois desse novo percurso, será que, ainda assim, “nós” teríamos sido, na essência, “nós”?
Ou será que já pouco restaria de semelhante ao que efetivamente viemos a ser, pouco mais do que a fisionomia com que a genética nos determinou definitiva e inapelavelmente?
Talvez, afinal, o nosso “eu” fosse “outro”, incluindo a nossa “essência”, seja lá o que for que cada um entende que é a sua “essência”, a sua alma ou o seu espírito.
Cada um de nós podia facilmente ter sido outro
É muito difícil estarmos lucidamente conscientes, em cada instante da nossa vida, deste facto relativamente óbvio e banal, mas difícil de digerir: imersos nessa roda gigante que é a vida, teria sido muitíssimo fácil cada um de nós ter sido “outro”.
Na busca incessante de um sentido para a nossa vida, acabamos por renunciar às experiências e estados que julgamos não fazerem parte desse sentido oculto que procuramos. No entanto, o sentido que obsessivamente perseguimos não é mais do que uma mera ficção, uma mera narrativa que permanentemente reescrevemos no silêncio e no drama da nossa solidão.
A aleatoriedade que marca o percurso da nossa existência e a sua natureza incidental, em resultado de uma série muito longa de acasos, parece esvaziá-la de sentido, de valor. Que valor tem uma vida que resulta de uma longa série de acasos? Que valor tem uma vida cuja natureza e essência são marcadas sobretudo por uma longa série de acontecimentos que se sucedem, uns a seguir aos outros, aleatoriamente, sem qualquer determinação da nossa vontade? Que valor pode ter um percurso que se deve, afinal, aos caprichos do acaso, ao mero desenrolar do destino que nos coube em sorte percorrer, que fez com que cada um de nós fosse o que é?
O conforto das respostas
É claro que podemos atravessar uma vida inteira, nascer, morrer, ter filhos, e por vezes até sermos felizes, sem nunca precisarmos do sentido da contingência da vida para nada, nem de pensar na aleatoriedade da existência humana, isto é, sem termos a consciência de que a nossa vida é como é, não porque esteja destinada a ser assim, pela fatalidade do destino, mas devido a uma sucessão muito grande de pequenos acasos que fazem dela o que é. E que poderíamos facilmente ter sido outros.
Muitos acreditam que aquilo que designei aqui por “acasos da vida” é, afinal, de algum modo, fruto de uma “vontade”, de uma determinação, não nossa, mas de alguém, ou de algo, externo e superior a nós. Esta fé tem sido a principal razão que permite a muitos encontrar a sua salvação e a sua redenção no conforto existencial que as religiões e outras formas de fé entregam, embora seja também a principal responsável pela maior parte dos conflitos e das guerras e pelas atrocidades mais desumanas de que o ser humano é capaz. Como quase tudo o que é mais importante na vida humana, trata-se de uma ficção em que podemos decidir embarcar. O que é um Deus ou uma religião? É uma narrativa na qual um número muito grande de pessoas acreditam. Em geral, são milhões. Se apenas eu e os da minha rua acreditarmos num qualquer Deus ou religião, não seremos crentes, seremos loucos.
Podemos ser quem quisermos
Por vezes, confunde-se espiritualidade com religiosidade. Mas a religiosidade tem mais que ver com dar respostas e a espiritualidade tem mais que ver com fazer perguntas. A religiosidade dá-nos respostas para as nossas interrogações: em geral, para cada religião, há livros que guardam as respostas e verdades intemporais – a Bíblia, a Tora e o Talmude, o Alcorão os Vedas, os Sutras. A espiritualidade aceita o espanto de o mundo ser como é, formulando perguntas para as quais sabe que não haverá respostas.
Devemos contentar-nos em ser apenas o resultado dos incidentes que o destino reservou para nós? Porque haveria de ser assim? Há um sentido de contingência e aleatoriedade que pode ser difícil trilhar, mas que pode ser muito libertador experienciar: sairmos de nós mesmos e do nosso casulo existencial e vivermo-nos outros, para podermos ter do mundo uma outra perspetiva, diferente da “nossa”. Quem no-lo poderia proibir? Só nós próprios. Porque não permitirmo-nos esse arrojo? Porque temos de ser um só? Porque temos de ser quem somos? Não será uma vaidade desmedida ficarmos agarrados a este percurso acidental que nos coube em sorte fazer, sendo apenas quem somos?
Porque não deixar que outros eus possíveis (ou, mais exatamente, verosímeis) floresçam em nós e tomem o nosso lugar ao volante, no palco da vida, enquanto ficamos placidamente nos bastidores cuidando dos pormenores da encenação ou da caracterização desses outros “eus” que irrompem de dentro de nós, enquanto ficamos por momentos no papel de mero “ponto”, protegidos das luzes da ribalta, desses acasos da vida que, simultaneamente, nos constroem mas que também nos agrilhoam a um único e vaidoso “eu”? Porque nos damos toda essa importância?
Não existe um valor intrínseco, imanente, no facto de sermos fiéis às escolhas que fizemos no passado. Sermos fiéis às escolhas do passado é um valor em si mesmo? Porque haveria de ser? Muitas vezes, trata-se, apenas, de uma manifestação de vaidade e apego às nossas próprias escolhas. Trata-se de sermos fiéis a nós próprios. Nada mais.
Sermos quem somos, cada um de nós ser quem é, pode incluir também sermos tudo aquilo que somos capazes de “ser”, para além daquilo que os acasos da vida determinaram que fôssemos. Só na aparência se vê aqui um jogo de palavras: Ser quem somos pode passar também por dar vida e voz ao que poderíamos ter sido, sendo porém ainda nós; dar vida e voz ao que somos “em potência”, ao que em nós ficou por viver, ao que em nós não subiu ao palco da vida. Talvez assim possamos ser livres e voar no céu da vida, em comunhão com a natureza, que é livre de ser o que é.
Da linha de raciocínio que expus acima resulta também a ideia de que não faz sentido prestar uma fidelidade canina às escolhas que vamos fazendo na construção do percurso da nossa existência, porque essas escolhas, quer por terem sido más quer também pelo facto de terem uma componente aleatória muito significativa, não podem ser amarras ou grilhões que nos impeçam de exercer o nosso livre-arbítrio, no dia a dia. A coerência não tem um valor intrínseco. Uma coisa é sermos coerentes e consistentes com valores fundamentais que deviam ser os de todos os seres humanos: fazer o bem aos outros e a nós próprios, por exemplo; outra coisa é estarmos aprisionados no lastro com que vamos fazendo o nosso caminho, apenas porque há um “eu” que tem de ser coerente. O eu nao tem de ser uma fatalidade. Pode ser uma construção. Podemos ser nós mesmos, diariamente, os autores do nosso eu. Os nossos próprios arquitetos.
Há “outros” dentro de nós. Não os rejeitemos por falta de coerência com o nosso eu contingente. Convidemo-los a entrar, a sentar-se e a conversar na sala de estar da nossa própria vida.
