Porque fugimos das perguntas sem resposta?

Deve acontecer com todos nós: recordarmos alguns locais não por terem sido palco de qualquer acontecimento ou episódio marcante que lá tenha sucedido, mas porque nesse local nos ocorreu uma qualquer ideia importante para o nosso futuro, um qualquer estado de alma ou sentimento forte. Comigo, um desses locais foi a rua da Constituição. 

Ainda hoje me lembro bem desse dia, e provavelmente nunca vou esquecer, em que a ideia me surgiu muito claramente no espírito e da sensação de paz e de libertação que senti.

A música pode ter efeitos inesperados

Eu era já bem adulto, pelos vinte e poucos, talvez. Ia a conduzir, pela Rua da Constituição abaixo, o meu velhinho Renault 5 branco. Era fim de tarde. Acho que havia algum trânsito e via-se ao fundo uma nesga de mar muito brilhante. A Rua da Constituição é uma das artérias mais populares da cidade do Porto e tem esta particularidade: fica num lugar elevado da cidade e nos fins de tarde de alguns meses do ano, descendo a rua, consegue-se entrever lá ao fundo uma linha de mar, que fica intensamente iluminada pelo reflexo da luz quando o sol se põe.

No carro, o volume do som ia muito alto e passava uma música chamada “Giant”, de um grupo que já não existe e se chamava The The, que eu viria depois, devido a este episódio, a conhecer muito bem.

Não fora o facto de essa música me ter marcado para sempre e a tal nesga de sol, lá longe, na direção do fundo da rua, estar particularmente bonita e intensa nesse dia, e teria sido um dia como outro qualquer. Mas não foi, porque ainda hoje recordo-o muito bem sempre que lá passo.

A tal música, um tema que é uma mistura de punk industrial com batidas e ritmos africanos, é das mais longas que conheço, mas apenas metade dela inclui letra, palavras. No tempo restante da música, durante cerca de 5 minutos, ouvimos apenas sons e ritmos destinados a fazer ecoar dentro de nós a mensagem deste tema musical e a deixar-nos mergulhar fundo dentro dela: um efeito semelhante ao dos créditos que ficam alguns minutos a rolar na tela, no escuro da sala de cinema, no final daqueles filmes que não esquecemos.

Este tema musical explora o tema do autoconhecimento e da angústia existencial da condição humana, como quase todo o álbum de que a música faz parte (Soul Mining), em especial o facto de sabermos que não estamos ao leme do nosso próprio “eu”. O refrão da música é uma mensagem muito simples e direta: “how could anyone know me, when i don’t even know myself?”, o que em português será algo assim: “Como pode alguém conhecer-me, quando nem eu próprio me conheço?”.

As perguntas dos adolescentes não são adolescentes

Nessa ocasião, surgiu muito claramente no meu espírito, como algo simultaneamente muito intenso e libertador, que as velhas questões ditas “de adolescência” (Quem sou eu? Porque sou quem sou?) não iriam ficar nunca resolvidas dentro de mim; que, pelo contrário, iriam para sempre acompanhar-me, se não coladas à pele, pelo menos dentro do meu círculo mais íntimo, como se fossem uma visita habitual lá de casa.

Em vez de atirar estas questões para trás das costas e simplesmente sorrir desdenhosamente delas, em vez de ignorá-las, fingir que não existem e continuar a trilhar aquele caminho de sentido único que nos cabe a todos percorrer e se faz apenas caminhando, talvez fosse melhor enfrentá-las, ainda que para sempre, ainda que não ficassem nunca resolvidas. Este foi o cenário que me terá ocorrido nessa ocasião. Terei provavelmente pensado em algo como: Porque hei de gastar o meu tempo apenas com questões resolúveis, se são aquelas que não têm solução que, em momentos-chave da minha vida, mais contam, mais me perturbam e mais me fascinam? Talvez algumas questões não existam para serem resolvidas, dissolvidas como pastilhas em soluções, mas para serem deixadas intactas, sendo apenas o que são: questões, perguntas. Talvez estas questões se tornem num problema existencial precisamente quando, muito adultamente (pensamos nós), nem queremos pensar nelas, quando lhes viramos a cara ou fugimos delas, quando nos recusamos a olhá-las nos olhos, por pensarmos que isso não é mais do que adolescer.

Mas é preferível termos questões a que ainda não conseguimos dar resposta do que termos respostas que já não conseguimos questionar.

Perguntar-nos-emos sempre: Quem sou eu?

A resposta às perguntas “Quem sou eu? Porque sou quem sou?” são geralmente dadas com desdém, de forma sarcástica: “Ora, ora, que raio de pergunta é essa? Eu… sou eu!” Mas esta é uma não-resposta. Desde que a inscrição “Conhece-te a ti mesmo” apareceu no templo de Apolo, na Grécia Antiga, este é um objetivo que, numa ou noutra fase da nossa vida, de algum modo, somos tentados a cumprir. Conhecermo-nos a nós mesmos.Teremos alguma vez sucesso ou êxito? Que importa? Será que o sucesso e o êxito importam, seja no que for? Quantas pessoas se tornaram infelizes e se suicidaram por terem cumprido todos os objetivos que se propuseram atingir, por terem tido sucesso, êxito e fama? Não importa se vamos ter sucesso ou êxito. Importa apenas percorrer esse caminho. Quem somos nós?

Nós somos aquele que pensa? Ou quem pensamos que somos?

Posso ter próteses em ambas as pernas e em ambos os braços e serei sempre eu; posso ter outros pulmões, outro fígado, um coração artificial para substituir aquele com que nasci; posso até fazer um bem-sucedido transplante de rosto. Isso já se faz desde o início do século. Em qualquer caso, serei sempre eu.

Mas seria ainda eu se fizesse um transplante de cérebro? Não. Porque o “eu” é uma entidade que está dentro do nosso cérebro. Quem não concorde que atire a primeira pedra e explique que pedra é essa que atira.

“Penso, logo existo”, dizia Descartes. Eu sou aquele que pensa. Mas, todavia… não sou eu que decido o que pensar.

Se tentarmos pensar em algo específico, escolhido por nós, pensar no dedão do pé, por exemplo, ou pensar na nossa respiração, se tentarmos que a nossa mente fique ocupada com algo que escolhermos, seja o que for: a forma de uma rolha de cortiça que está em cima da mesa, a cor de uma almofada pousada no sofá, o ar que entra e sai do nosso nariz, seja o que for que diga respeito ao mundo real e imediato que em cada momento experienciamos, quanto tempo conseguiremos ficar a pensar nesse tema ou objeto específicos em que escolhemos pensar? Surpreendentemente, muito pouco tempo. Façamos a experiência. Alguns segundos? Quantos? Muito poucos. Basta experimentar. A nossa mente é invadida por todo o tipo de pensamentos que não são escolhidos por nós. O que vou fazer a seguir? Por que raio estou a tentar pensar noutra coisa? Este teste não é um pouco estúpido? Está alguma coisa ao lume? O que significa exatamente o que ele/ela me disse? Que significado pode ter isto? As gatas têm água? O cão já foi mijar? Não temos mão na nossa mente, nos nossos pensamentos.

Foi esta ideia, com estes ou outros contornos de que não me recordo bem, que nesse dia específico em que descia a rua da Constituição me ocorreu de uma forma fortíssima, como um clarão ou um raio de luz que, em vez de cegar, rasgasse com ele todo um novo caminho a percorrer: não temos de viver encerrados em nós, não temos de ser escravos dos nossos próprios pensamentos, não temos de ser apenas quem somos.Talvez possamos ser o que quisermos. E o primeiro passo pode passar pela humildade de admitirmos que não controlamos os nossos próprios pensamentos.

Se nós somos, fundamentalmente, a nossa mente, o nosso cérebro, mas não somos nós que controlamos o que se passa dentro dele, então quem raio manda em nós? Onde podemos encontrar-nos, fora da nossa mente? Se não estamos ao leme de nós, porque somos quem somos? Esta será a pergunta para o próximo tópico.

Esses escassos momentos de intenso adolescimento, de libertação ou redenção, em que o peso incómodo de mim mesmo subitamente me saiu de cima dos ombros, ficarão para sempre ligados à rua da Constituição. E ainda hoje não há dia em que passe nesta rua que não lembre desse outro dia, há trinta e muitos anos, em que ouvi pela primeira vez “Giant”, dos The The.

Se não houvesse nada mais a dizer sobre o poder que a música pode ter, este seria para mim suficiente.

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