Qual é o sentido da vida?

Fotomontagem a partir de: Auguste Rodin,

O pensador

A resposta mais sensata a esta pergunta pode ser dada muito rapidamente: perguntar qual é o sentido da vida não faz sentido. E não se trata de um jogo de palavras. A razão é muito simples. O sentido não é, nem pode ser, uma propriedade da vida. A vida, em si mesma, não tem, não pode ter, qualquer sentido. Nem é essa a sua vocação.
A vida é o que é: um fenómeno natural.

Aquilo que designamos como o sentido da vida não é uma propriedade que possamos encontrar externamente, nem mesmo com muito estudo, com muita reflexão e investigação. O sentido é uma capacidade humana, não é uma propriedade do mundo. Mas vamos regressar mais tarde a esta ideia.

Como surgiu o sentido?

Pode parecer uma pergunta vã ou sem sentido. Mas não é. Estamos tão habituados a ver um sentido nas coisas, que nem nos ocorre que se trata de uma invenção recente.
A Natureza, o planeta Terra e o mundo nunca precisaram de sentido para se manifestarem, em todo o seu esplendor, ao longo de muitos milhões de anos. Os fenómenos naturais não têm, nem precisam de ter, sentido; são apenas isso mesmo: naturais. Temos tendência para pensar que o sentido que damos às coisas do mundo sempre existiu com elas, cabendo-nos a nós captar esse sentido que elas têm, como se ter sentido fosse uma propriedade inerente à própria existência dessas coisas. Mas não é assim. O sentido é uma construção humana.

Nós, humanos, a partir de uma certa fase da nossa evolução (a que muitos chamam “revolução cognitiva”), adquirimos um novo mecanismo, uma nova ferramenta, a capacidade de dar sentido às coisas: involuntariamente, passamos a ser, mais do que produtores de utensílios para a nossa sobrevivência, produtores de sentido. É por esta razão “evolutiva”, digamos assim, que, para nós, humanos, viver passou a ser algo mais do que a mera sobrevivência.

Habitualmente, não pensamos nisto, porque é difícil pensar num mundo que já existiu sem qualquer sentido, pela simples razão de não haver quem lho pudesse dar. É difícil imaginarmos um mundo pleno da sua própria beleza, força e luz, independente dessa máquina de pensar e de fabricar sentido em que estamos encerrados.

O sentido é uma conquista recente
O poder de atribuir um sentido ao mundo é algo muitíssimo recente na história da Terra. Durante cerca de 4 mil milhões de anos, tanto quanto se sabe, o mundo girava e a Natureza exprimia-se sem que se fizesse sentir a falta de qualquer sentido. Mesmo quando, já muito recentemente, as primeiras espécies humanas surgiram na Terra, há pelo menos 2 milhões de anos, esses animais, vagamente semelhantes a nós, não atribuíam significados às coisas porque não tinham essa capacidade, limitando-se a lutar pela vida para sobreviver, como qualquer outra espécie animal. Por razões evolutivas muito complexas, muito interessantes e muito discutidas, que não cabe aqui referir, a história humana tornou-nos máquinas de produzir sentido. Mas isso só aconteceu muito mais recentemente, há cerca de 70 mil anos.

É sobretudo esta capacidade que nos distingue de outros seres vivos, mais do que a inteligência, que é uma capacidade mais relativa e subjetiva. Produzir sentido(s) e dar significado ao mundo é o que nos torna únicos. Alguns autores, como o historiador Yuval Harari, acham mesmo que o que mais nos distingue de outros animais e a razão de prevalecermos como espécie predominante no Planeta é a capacidade de criar e difundir realidades virtuais, realidades que não existem: narrativas, histórias, ficções, desde as fronteiras dos países (que só existem em dossiês guardados nas gavetas dos políticos e burocratas) até às religiões (que aproximam e afastam os humanos em convulsões ditadas pelo mistério da fé e pela força das narrativas), passando pelo valor desses pedaços de papel esverdeado a que chamamos dinheiro, pelos quais muitos humanos lutam e morrem. Mas este será um tópico a explorar em outro lugar.

É o sentido que nos distingue de outros animais
Esta nova capacidade evolutiva não só nos permitiu dar sentido ao mundo que nos rodeia, como também nos permitiu criar outros mundos com sentido. A partir desta nova capacidade nasceram outras, que fazem de nós o que somos: a faculdade de linguagem (que não é mais do que a materialização do sentido no nosso aparelho fonador e na nossa voz), a imaginação, a capacidade de criar símbolos, de produzir e acreditar em ficções, de projetar a nossa vida para além da própria vida, de imaginar o céu e o inferno, o poder de gerar culturas e civilizações e todo um mundo de realizações humanas que nos permitiram ter chegado aonde chegámos.

Não há bela sem senão: trincámos a maçã

Como dizia um célebre economista, não há almoços grátis. Ao adquirirmos a capacidade de produzir sentido (que muitos encaram como uma maldição), trincámos a maçã do conhecimento. Esta nova capacidade evolutiva veio acompanhada de uma espécie de maldição: a necessidade de gerarmos um “eu”, uma entidade que pensa, que se pensa a si mesma, que pode conhecer, que fabrica conhecimento, que inventa realidades e as transmite a outros.
A faculdade de conhecer, de estar ciente do mundo, de lhe dar sentido, passou a fazer parte de nós. Quer seja benção ou maldição, todos nascemos e crescemos com ela.

O sentido é um mecanismo evolutivo
Do ponto de vista evolutivo, nós, humanos, enquanto espécie, passámos a segregar sentido, como um caracol segrega o seu muco quando se desloca. E tal como sucede com o muco do caracol, o sentido passou a desempenhar para nós, ao longo de muitos milhares de anos, funções biológicas importantes. Ao caracol, a produção de muco facilita a deslocação e protege-o contra predadores e microorganismos; a nós, humanos, a capacidade de produzir sentido permitiu-nos ter muitas vantagens relativamente a outras espécies animais, vencer predadores muito mais poderosos do que nós e conquistar o mundo. O modo como esta nova capacidade de produzir sentido(s) nos permitiu paulatinamente prevalecer sobre outras espécies é fascinante, mas não cabe agora aqui aprofundar.

A analogia entre a capacidade de produzirmos sentido(s), ou de dar sentido à vida, e a capacidade do caracol para produzir o seu muco pode parecer estranha, demasiado simplificadora ou, pior ainda, apenas um recurso linguístico pouco apropriado para um assunto tão “elevado”. Mas as analogias, tal como as metáforas, têm um papel bem mais importante do que obter efeitos linguísticos estranhos. Elas permitem-nos ligar, relacionar, organizar e estruturar o conhecimento do mundo. E por vezes são as analogias que nos permitem passar da informação ao conhecimento.

A melhor forma que conheço para mostrar isto que acabo de dizer é o que esta imagem mostra (com a devida vénia a Edward O. Wilson).

Esta incursão breve na natureza evolutiva dessa capacidade que nos permite dar sentido às coisas foi necessária para concluir agora, regressando ao tópico: qual é o sentido da vida?

Todos sabemos que há perguntas que não têm resposta. Mas ainda assim, fazemo-las, porque no íntimo sabemos que vale a pena explorar as pistas que se abrem quando tentamos responder-lhes, ainda que saibamos que não vamos obter uma resposta satisfatória, que nos preencha ou nos satisfaça totalmente.

Os diferentes tipos de respostas a esta pergunta dependem daquilo que esperamos que nos contem quando a colocamos, ou quando a colocamos a nós próprios. Porque em qualquer caso a resposta será, não uma construção científica objetiva, mas antes uma narrativa, uma história que faça para nós sentido.

O que queremos efetivamente saber com esta pergunta?

O sentido da vida pode ser muito simples

Se com “saber o sentido da vida” queremos saber em poucas linhas o propósito ou o fim último de todas as ações humanas, alguns autores respondem-nos de um modo muito simples, afirmando que não somos assim tão diferentes de outros seres vivos: quando encontramos prazer e contentamento, procuramos mais desse prazer e desse contentamento (embora nunca fiquemos satisfeitos); quando encontramos sofrimento e dor, fugimos do que nos causa sofrimento e dor (embora nem sempre com sucesso). E é esta, se quisermos, a história da vida humana. Dito de outro modo: a vida consiste em procurarmos, por um lado, prazer e felicidade e, por outro lado, em fugirmos da dor e do sofrimento. Nada mais simples. Se quisermos, podemos mesmo resumir deste modo todas as ações humanas.

De um modo ou de outro, quer sejam muito complexos quer sejam muito mundanos, todos os comportamentos humanos desaguam nestas duas ações/reações. Das mais elevadas expressões artísticas até aos mais banais comportamentos, é isto que fazemos todos os dias. E é o que fazem também outros seres vivos. Para sobreviverem o melhor possível, o que fazem todos os seres vivos? Fazem duas coisas. Por um lado, evitam sofrer e morrer; por outro lado, procuram o maior prazer e satisfação que podem encontrar, comendo, procurando um companheiro para acasalar, procriando, dormindo, apanhando sol… é isso que fazem os seres vivos. Analisando o sentido da vida por este ângulo, simples e direto, esta é a forma mais simples de responder: o sentido da vida é fugirmos do sofrimento e procurarmos o prazer.

O sentido da vida pode ser inalcançável
Se com “saber o sentido da vida” queremos saber mais sobre os mistérios, os mecanismos, as estruturas, os dispositivos que os organismos vivos põem em ação para fazerem aquilo que sabem fazer melhor, que é sobreviver e reproduzir-se; se com “saber o sentido da vida” queremos saber mais sobre as etapas que conduziram da não-vida à vida, desde a sopa primordial até aos vertebrados e aos mamíferos, se com “saber o sentido da vida” queremos saber mais sobre a vida ela-própria e a sua evolução, se queremos com esta pergunta abrir o espírito à complexidade, ao profundo mistério e à espantosa beleza que é a evolução das espécies e conhecer o modo como chegámos, nós humanos, até aqui, isso exige uma resposta impossível, tão longa é a viagem e tão vasta a ignorância que subsiste depois de a empreendermos, ainda que consagremos a essa viagem a nossa vida inteira. De ignorância em ignorância, ficaremos a saber sempre um pouco mais, mas, paradoxalmente, ficaremos cada vez mais longe de sabermos tudo. São assim os degraus do conhecimento.

De tão misteriosa, rica e inescrutável que a vida é, não podemos dar uma resposta cabal e satisfatória à nossa pergunta “Qual é o sentido da vida?”. Não há uma resposta, como não há uma verdade. O que nos resta, mais uma vez, não é mais do que um caminho. Para cada um de nós, para estas perguntas, não há respostas. Só há caminhos. Como se pode perceber bem, esta divagação em torno da pergunta “Qual é o sentido da vida?” não é uma resposta. É um caminho.

Em conclusão: a resposta mais extensa à pergunta “Qual é o sentido da vida?” abre lugar não a uma resposta mas antes a uma miríade de respostas parciais, incompletas e impermanentes. Abre a porta à indagação científica, com tudo o que ela traz de angústia e de libertação.

O sentido da vida pode ser uma armadilha
Habitualmente, com a pergunta “Qual é o sentido da vida?”, não é nenhuma das respostas anteriores que queremos obter. O que desejamos é outro tipo de resposta. Não procuramos trilhar o caminho do conhecimento, procuramos antes situar-nos naquela que julgamos ser a grande narrativa do mundo, queremos saber o nosso lugar no grande palco da vida. Qual é o nosso papel nesta gigantesca roda da vida? Que máscara devo colocar neste grande palco que é o mundo? Que papel devo desempenhar? Que significado afinal tem a minha vida?

Não nos contentamos em viver a nossa vida de seres insignificantes, igual à de tantos outros animais. Não queremos ser apenas poeira do mundo. Perguntamos pelo sentido da vida porque procuramos desempenhar um papel dentro dela, como se ela fosse uma ficção e nós fôssemos o/a protagonista. Mas acontece que essa ficção, essa narrativa, não existe. Queremos saber qual é exatamente o nosso lugar no palco da vida, mas trata-se também de uma miragem: a vida não é um palco.

A necessidade de dar um sentido à vida é uma ilusão criada sobretudo pelo nosso hemisfério esquerdo, um modo de darmos coerência, corpo e estrutura a uma entidade fictícia à volta da qual giramos, como uma borboleta à volta de uma lâmpada, a que chamamos “eu”. Trata-se de um modo de ficarmos de pé nesse palco da vida em que imaginamos desempenhar o nosso papel. Esse ser que imagina e fantasia e que tanto admiramos dentro de nós, o nosso “eu”, pode no entanto ser um empecilho que nos impede de ver o mundo como ele é e de fazermos parte dele na nossa pequenez, felizes na nossa insignificância.

O sentido da vida pode ser o que quisermos

Frequentemente, a procura pelo sentido da vida, isto é, por um lugar nesse palco que imaginamos que a vida é, constitui para muitos um caminho tortuoso, uma procura sem fim por um destino sem lugar dentro de si. Outras vezes, a procura pelo sentido da vida dá lugar a uma entrega desmesurada a dogmas que cegam, levando-nos a percorrer caminhos inventados por outros, por quem não se contenta em saber-se apenas poeira do mundo e se engrandece com levar atrás de si multidões.

Quer queiramos quer não, é esta a nossa glória e a nossa maldição: o sentido da vida está dentro de nós, é da nossa responsabilidade produzi-lo.

Encontrar um sentido para a vida dentro de nós e, em especial, um propósito que nos faça felizes e alinhados com a majestática roda da natureza e da vida, que passa muito bem sem os sentidos que lhe queiramos dar, não tem de ser o drama em que podemos mergulhar quando nos imaginamos protagonistas no palco da vida, nem tem de ser esse caminho, simultaneamente tortuoso e fervoroso, traçado por quem podemos ser tentados a seguir, para virarmos a cara à nossa responsabilidade, à nossa própria imagem refletida no espelho quando pegamos na nossa vida com as nossas próprias mãos. Pode ser outra coisa.

Aqui escrevo ideias, reflexões, fragmentos que um dia darão forma a este livro.

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