Porque temos opiniões?

Sou de opinião que deveríamos fazer os possíveis por não ter opiniões. Perdoe-se-me o paradoxo, mas já explico.

A não ser que estejamos bem preparados para o facto de os outros terem uma opinião diferente da nossa, é perigoso termos opiniões.

Também por essa razão, espero que todos se marimbem para as minhas.

Opiniões estruturantes

Montaigne foi um filósofo e escritor francês que viveu no séc XVI e é considerado por alguns o primeiro escritor a ter a coragem de dizer como autor o que sentia como homem.

Um belo dia, decidiu que não estava mais para aturar a intensa vida pública em que participava, retirou-se para o seu castelo, rodeou-se de livros e passou o resto da sua vida a escrever o que pensava sobre si mesmo e sobre o mundo. Como era rico e pertencia à nobreza, podia fazê-lo sem dar cavaco a ningúem.

É amplamente reconhecido que foi Michelle de Montaigne quem inaugurou o género literário “ensaio”.

“Ensaio” vem do francês essayer, que significa testarensaiar, tentar, experimentar. Por sua vez, a palavra francesa vem de uma palavra latina que significava algo como pesarmedir.

Esta breve incursão na terminologia e evolução semântica das palavras tem um propósito: num ensaio, o autor ensaia teorias, experimenta abordagens, testa pontos de vista, sem qualquer objetivo de extrair conclusões ou estabelecer verdades sobre o que quer que seja. Essas reflexões não podem deixar de ser subjetivas e refletir a sua opinião, mas o autor está ciente da relatividade das teses, argumentos e pontos de vista apresentados, podendo mesmo apresentar pontos de vista contraditórios, para melhor caracterização da complexidade dos temas abordados.

Quando as opiniões que damos, que lemos ou ouvimos são deste tipo, ou seja, um modo de experimentar diferentes abordagens e pontos de vista, de testar argumentos e de pesar o pensamento, as opiniões são saudáveis e produtivas, podendo ter um papel importante, juntamente com os valores em que acreditamos, na construção da identidade de cada um e contribuindo também para o desenvolvimento saudável das sociedades.

Levar as nossas opiniões à revisão

As opiniões são importantes para estruturarmos a nossa identidade, o nosso “eu”, mas temos de ter cuidado para não ficarmos reféns das nossas próprias opiniões. Para uma boa higiene mental, devemos sujeitá-las periodicamente a uma revisão ou, pelo menos, a um teste de esforço.

Na ânsia e necessidade de sermos coerentes com a nossa própria identidade, com o nosso próprio “eu”, é muito fácil termos medo de perder-nos, aceitando como certas as opiniões que fomos construindo, quantas vezes meros castelos de areia construídos em terreno frágil.

Por vezes, somos injustos e sujeitamos os nossos interlocutores ao teste da coerência, exigindo que fiquem reféns das suas próprias opiniões: estamos mais atentos à coerência das palavras que dizem do que ao seu significado, tentando perceber onde escorregam na apresentação do seu ponto de vista, onde falham e fraquejam, onde hesitam e se contradizem, para podermos sorrir levemente e pensar: ainda não é aqui que vou encontrar a verdade. Como se a verdade fosse um alvo desejável e perfeito, que um dia haveremos de encontrar nas palavras dos outros.

Somos injustos, porque o melhor que as pessoas têm para nos oferecer não são verdades, mas sim pontos de vista, perspetivas, fontes de luz que nos permitem aclarar o nosso próprio caminho.

Muitas vezes, os pontos de vista, os focos de luz que nos oferecem, são fracos e incoerentes: cruzam-se, sobrepõem-se, contradizem-se, até. Mas a incoerência e a contradição não são condenáveis, são ferramentas e feridas de quem procura, são inerentes ao ato de procurar. Quando somos coerentes e exatos, para quê procurar? Se sabemos exatamente o que procuramos e como procurar, isso é sinal de que já encontramos.

Opiniões, coerência e verdade

De um modo geral, exigimos coerência demasiadas vezes. A nós e a aos outros. Precisamos de coerência porque nos imaginamos dentro da grande narrativa do mundo, e as narrativas têm de ter um fio condutor que as estruturam, que lhes dão forma. Queremos encontrar “a verdade” em todas as coisas que ouvimos ou lemos. Mas esse é, frequentemente, um desejo vão e, sobretudo, inútil.

Vale a pena procurar a verdade desde que saibamos que não a vamos encontrar. Se não soubermos isso, a procura pode ser tortuosa, inglória e mesmo fatal.

A verdade não é um local aonde se chega. É apenas um percurso que podemos escolher percorrer.

Se a verdade fosse um local aonde se chega, já teriam sido inventadas autoestradas para lá chegar.

Por ser apenas um caminho que podemos percorrer, a verdade pode ser trilhada, pode até ser desejada, mas não tem de ser alcançável ou encontrada.

Seja como for, o melhor que podemos querer encontrar não é a verdade. É outra coisa. Mas este será um tópico para desenvolver noutra ocasião.

Opiniões sociais

Uma outra categoria de opiniões manifesta-se frequentemente em pequenos grupos.

Usamos as nossas opiniões para tapar os buracos da comunicação humana. E atiramo-las para uma mesa ou uma sala de convívio como um pintor da construção civil atira com argamassa para as fendas de uma parede. Como não sabemos o que fazer ou dizer quando a comunicação para e não flui, desatamos a opinar. Outros animais, quando se reúnem em pequenos grupos e não têm nada para fazer, catam-se e lambem-se mutuamente, cheiram o rabo uns dos outros, dão turrinhas, fazem sexo, lutam entre si… Nós, humanos (excetuando raras e honrosas exceções), quando não encontramos nada de melhor para preencher os espaços da existência e da comunicação, damos opiniões.

Quando as opiniões desempenham este papel socializador, enquanto instrumentos para a convivialidade humana, é ótimo ter meia dúzia delas metidas no bolso, sempre à mão.

Temos medo de não ter opinião

Claro que, por vezes, exageramos. E fazemo-lo porque, erradamente, pensamos que o pior que nos pode acontecer é admitir que não temos qualquer opinião formada sobre um qualquer assunto que esteja na ordem do dia. Temos medo que julguem que andamos a dormir ou que somos estúpidos ou ignorantes.

Na dúvida, disparamos a nossa opinião mais rapidamente do que o Lucky Luke disparava as suas balas. Puxamos de dois ou três argumentos, esgrimimo-los com dois ou três adversários e lá vamos nós, lançados numa acalorada discussão, que, não raras vezes, dura bem mais do que aquilo que o assunto vale, terminando tudo em “águas de bacalhau”.

Há quem olhe para esta expressão no sentido de “perder-se”, “ficar sem efeito”, atribuindo a sua origem aos tempos em que os bacalhoeiros, muitas vezes, perdiam as suas vidas e os seus barcos em mares distantes, mas aqui não a uso nesse sentido trágico, mas num outro sentido, que corresponde àquele que damos às coisas que, tal como sucede às aguas em que o bacalhau é demolhado, têm como destino irem pelo ralo da banca abaixo ou, pior ainda, pelo sifão da sanita, por cheirarem tão mal que não podem ter melhor destino. Na verdade, esta analogia é justa quer quanto ao odor que exalam, quer quanto ao destino que merecem muitas das discussões opinativas a que assistimos ou que protagonizamos.

É verdade que estes episódios de esgrima opinativa também acontecem na televisão, dentro e fora de noticiários e outros sérios programas de informação, com senhoras e senhores metidos dentro dos seus fatos, sentados em sofás confortáveis ou à volta de uma mesa, gastando assim o tempo e a vida de muito milhares de pessoas que têm mais que fazer. Mas, nesses casos, basta recorrermos ao nosso sempre precioso polegar e carregar num botão.

Opiniões tóxicas

Certas opiniões não servem como instrumentos para a construção da identidade nem como instrumentos de socialização. São outra coisa.

Algumas opiniões podem ser perigosas e fazer muito mal à saúde. E são estas mesmas opiniões, também, que podem conduzir a conflitos e guerras.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) utiliza há muitos anos um sistema de codificação médica internacional que permite categorizar uma vasta gama de doenças e condições relacionados com a saúde (física e também mental, naturalmente). É a CID (Classificação Internacional de Doenças). Não se trata de uma mera lista. É um “sistema” relativamente complexo. E por uma boa razão. De quando em quando, surgem doenças que não lembram ao diabo. Basta consultar. Se lermos atentamente, cada um de nós tem umas quantas: físicas e mentais. A última versão disponível inclui cerca de 17 mil doenças.

A ânsia desmesurada de ter e de dar opiniões deveria ser uma condição de saúde mental catalogada no CID (Classificação Internacional de Doenças) e ser tratada como tal.

Verdades, opiniões e outras inflamações do espírito humano

Já todos nós nos deparamos com aquelas pessoas na presença das quais temos necessidade de nos apoucar, de nos fingirmos menores do que aquilo que somos, mais ignorantes, por assim dizer, porque essas pessoas só funcionam quando são elas as protagonistas do cenário onde atuam. Usamos com elas um truque que muitos designam por “ignorância tática”.

Por isso, se queremos conviver com essas pessoas, escutá-las, conhecer o que têm para dizer, aprender como funcionam esses seres cheios de verdade e de luz, temos de fingir-nos pequenos e baços, para que então elas possam brilhar sem interrupções e sem sombras. Se não for assim, perdemo-las. E muitas delas são ótimas pessoas, pessoas a quem achamos graça, ou mesmo pessoas de quem gostamos. Acontece que, quando não as deixamos protagonizar, elas ficam encolhidas, tristes, por vezes até mesmo zangadas. Se não as deixarmos brilhar, algumas sentam-se a um canto, fazem birra e dizem-nos, sem mesmo precisarem de o dizer: assim não brinco. Outras chegam mesmo a ir discretamente embora e, felizmente para a nossa saúde mental, não voltam a aparecer.

De um modo geral, são pessoas que opinam como se não houvesse amanhã. Opinam sobre tudo. São um prodígio da opinação. E em cima dessas opiniões constroem por vezes convicções inabaláveis.

Mas não sejamos demasiado severos com essas pessoas. Acontece a todos de vez em quando. Quem não caiu já nessa armadilha de opinar sem grande conhecimento de causa, que lance a primeira pedra.

E fazemo-lo porquê?

Geralmente, trata-se de uma mera inflamação. Não do mesmo tipo das inflamações fisiológicas (como a garganta ou o estômago), mas uma inflamação do espírito. Felizmente para muitos de nós, é uma inflamação passageira. Como quem apanha um resfriado.

O problema é que muitas pessoas sofrem de inflamação crónica. E essa é uma doença social, que as redes sociais e outras vieram agravar.

Para os mais pragmáticos e objetivos, que entendem que a noção de “inflamação do espírito” é pouco prática e pouco científica, podemos antes dizer que essas pessoas são vítimas de uma sobre-expressão dos processos eletroquímicos que percorrem os tecidos do seu sistema nervoso, em resultado da sua interação com o mundo.

São pessoas com um “eu” inflamado, pessoas com “eu” a mais.

Sucede-lhes ficarem inflamadas, muitas vezes, sem maldade e sem intenção. Não devemos por isso ser demasiado severos, nem culpá-las ou julgá-las por isso. Devemos antes, enquanto sociedade, conseguir encontrar um tratamento para elas. Em primeiro lugar, classificar esta condição mental e tratá-la como tal. Em segundo lugar, ajudar essas pessoas a recuperar-se, a sair de dentro do poço onde caíram, muitas vezes alojado profundamente dentro de si próprias.

Em muitos casos, felizmente, estas pessoas não causam qualquer prejuízo aos outros. São apenas aborrecidas. Muitas vezes, ficam espontaneamente curadas. Mas noutros casos, a inflamação crónica do espírito de que são vítimas evolui para a agressividade e, nos casos mais graves, são a origem da intolerância, da violência e da guerra.

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