
Geralmente, não temos qualquer razão para sofrer.
Se excetuarmos o sofrimento resultante da morte de um familiar, de um amigo, de um animal de companhia, ou ainda por motivos de saúde, em que a dor se manifesta objetivamente no nosso corpo, ou no corpo dos nosssos familiares ou amigos, não há qualquer razão para sofrermos.
A maior parte do sofrimento humano resulta das ficções, das narrativas que nós próprios construímos, do modo como nos vemos a nós mesmos naquilo que pensamos ser a grande narrativa do mundo.
Que significado tem a minha vida? O que não terei feito bem? Porque terei falhado? O que poderia ter feito melhor? Será que gostam de mim como sou? Porque me falaram assim? Será que estão a excluir-me? Que significado terá o que acabaram de me dizer? O que poderei não ter compreendido? O que me falta fazer na vida? Valho alguma coisa? Estou a ter sucesso? Serei um falhado? Posso fazer melhor?
Queremos saber qual o sentido da nossa vida, encontrar o nosso lugar no fio dos acontecimentos daquilo que pensamos ser a grande narrativa do mundo.
Somos construtores de narrativas
Pensamos na nossa vida, no que nos vai acontecendo e no que ela representa, como se estivéssemos enfiados dentro de uma gigantesca narrativa e tivéssemos um papel a representar dentro dela.
Mas acontece que o mundo e a vida não são um filme nem uma peça de teatro em que tenhamos de representar um papel; a vida não tem um fio narrativo, não tem um guião, muito menos um realizador ou dramaturgo. A vida é uma sucessão de acontecimentos naturais que ocorrem no planeta há muitos milhões de anos.
Na história do planeta e da vida, só muito recentemente surgiu este fenómeno novo a que chamamos consciência humana. Com ela, o mundo e a vida adquiriram um sentido que nunca até aí tiveram. Mas apesar da consciência que temos do mundo que nos rodeia, apesar do drama que por vezes fazemos em torno das nossas existências, os fenómenos naturais que fizeram do mundo o que é, e de nós o que somos, depois de milhões de anos de paciente evolução, seguem o seu curso e os mesmos princípios de sempre. Esses princípios são os da física e da química. Estes são os grandes atores do gigantesco drama cósmico que é a vida: eles sim, são o segredo da máquina do mundo.
A consciência humana, em especial a perceção complexa, intrincada e cognitivamente evoluída que temos do mundo e da vida, é apenas um mecanismo relativamente recente na evolução das espécies.
Se olharmos objetivamente para o que nos rodeia, as nossas vidas e as coisas que nos acontecem são apenas grãos de poeira que se levantam da terra e se agitam quando por ela passam as grandes senhoras do mundo: a física e a química.
No teatro de operações da existência humana há porém esse interveniente novo, que é a consciência e a necessidade de darmos sentido a tudo.
As coisas acontecem e não nos contentamos em vê-las acontecer. Procuramos saber o que significam. Como se tudo tivesse de ter um sentido. Como devo interpretar isto? Que sentido devo dar ao que aconteceu? Procuramos também ter um sentimento e uma reação em relação ao que nos acontece. O que devo sentir? Como devo reagir?
Julgamos fazer parte da grande narrativa do mundo e queremos desempenhar bem o nosso papel. Conjeturamos sobre o sentido que tem o nosso passado e antecipamos ansiosamente o nosso futuro. E raramente nos concentramos em viver serenamente o presente, que é onde tudo acontece.
Vivemos a tentar dar sentido ao que já aconteceu ou a tentar perscrutar ou antecipar ansiosamente o que está por vir. Somos máquinas de produzir sentido.
Não somos os nossos pensamentos
Sentamo-nos no sofá, lemos um livro ou o jornal e somos assaltados por todo o tipo de pensamentos, julgando que esses pensamentos correspondem a uma entidade a que chamamos “nós”.
Mas esses pensamentos não são fruto da nossa vontade. Basta refletirmos um pouco para percebermos que não controlamos os nossos pensamentos. Não conseguimos pensar mais de alguns segundos seja no que for que decidirmos querer pensar. Em cada instante, somos assaltados por todo o tipo de pensamentos que não decidimos pensar, nem controlamos de todo. Que entidade é então essa, que está presente nesses pensamentos que irrompem sem licença e sem intervenção da nossa vontade? Somos nós? Se irrompem sem intervenção da nossa vontade ou sequer da nossa consciência, somos nós?
Se virmos bem, esses pensamentos que não controlamos ocupam quase integralmente a nossa vida. Muitas vezes, passa-se muito tempo até que reparamos neles: ah, estive aqui a pensar numa quantidade de coisas parvas. Ou: ah, estava a ler este livro mas os meus pensamentos andaram bem longe.
Quem é essa entidade que irrompe assim subrepticiamente na nossa existência?
É o “eu” a tentar sobreviver. É o “eu” a tentar encontrar o seu lugar no que pensamos ser a narrativa do mundo. Mas que “eu” é esse? E nao podemos deixar de fazer a pergunta embaraçosa e paradoxal: esse “eu” somos “nós”?
É nesse movimento interior que mais sofremos. Nesse lugar em que pensamos que somos nós, mas não somos, são apenas os nossos pensamentos. É aí que sofremos, nesse lugar onde não conseguimos separar os nossos pensamentos daquilo que efetivamente somos. Dito mais diretamente: sofremos porque não conseguimos separar os nossos pensamentos daquilo que somos. Nós não somos os nossos pensamentos.
Desconfiar do nosso “eu”
A culpa do sofrimento humano é geralmente dessa entidade omnipresente, que nos invade e inunda, mas que é, na verdade, fictícia: essa ilusão a que damos o nome de “eu”.
O sofrimento é por isso geralmente insano e podemos evitá-lo se renunciarmos, controladamente, a essa ficção, a essa armadilha chamada “eu”.
Sofremos quando interpretamos as coisas de um modo que nos é desfavorável. É o nosso hemisfério esquerdo (da linguagem e dos símbolos, das etiquetas, dos significados e da lógica) a querer interpretar tudo, como se tudo tivesse de ter interpretação, quando na verdade quase tudo apenas acontece, quantas vezes ao acaso, num fluir das coisas tão natural como o vento a correr por entre as árvores.
Erradamente, identificamos esses pensamentos e os sentimentos que deles decorrem como sendo “nós”.
Muitas vezes, nesse movimento interior, construímos sentimentos negativos e injustos relativamente a situações, a pessoas e, em especial, a nós mesmos. E assim andamos, muitas vezes durante a vida inteira, manietados por um eu que já nao é, um zombie que nos aniquila e que vive dentro de nós.
Sofrimento, emoções e sentimentos
Quando dizemos que uma grande parte do sofrimento humano é insano e perfeitamente evitável, temos de distinguir entre, pelo menos, duas formas distintas de experienciarmos o mundo.
Quando falamos de sofrimento, é bom sabermos distinguir os sentimentos das emoções.
Quando o sofrimento se manifesta como emoção (resposta fisiológica ou psicológica a um dado estímulo), é muito difícil evitá-lo, por uma razão simples: as respostas emocionais geralmente não são conscientes. E se não temos consciência de que elas vão ocorrer, não podemos evitá-las. Trata-se de respostas “automáticas” cujos mecanismos de ação residem nas profundezas do nosso sistema nervoso e se relacionam com situações que experienciámos desde que nascemos e que, por essa razão, inevitavelmente escapam ao nosso eu consciente. Uma resposta emocional é rápida porque resulta de automatismos desencadeados no nosso sistema nervoso e que o nosso eu consciente (mais lento) não controla.
Etimologicamente, e-moção (e-motion) tem a mesma origem de outras palavras relacionadas com ação e movimento (motion); uma moção de censura, por exemplo, é uma ação de censura.
No caso de uma e-moção trata-se também de uma ação, um movimento que se manifesta e que se nos impõe, quer queiramos quer não. O “e-” que está presente na palavra e-moção indica a exteriorização desse movimento (o mesmo “e-” que encontramos em palavras como evasão, ejetar, eclodir, todos movimentos para fora). A e-moção é um movimento de dentro para fora, que se instaura e irrompe, imparável, de dentro de nós, como que “naturalmente”.
Quando sofremos com as emoções que o nosso corpo experimenta (incluindo naturalmente aquelas que ocorrem no cérebro, sem origem fisiológica), não há nada que possamos fazer. O facto de as emoções não serem conscientemente elaboradas nem dependerem da nossa vontade coloca-as sob as luzes da ribalta, no palco da vida e dos acontecimentos.
Quando uma emoção se manifesta, imparável, o que pode fazer o nosso ser consciente? Sentar-se na plateia e assistir, impotente, ao filme que perante nós se desenrola. É por isso que quando alguém quer explicar um estado de um indivíduo resultante de uma emoção exclama: “emocionou-se”. Querendo com isto dizer: ocorreu dentro dele um movimento imparável de dentro para fora. Isto é, perdeu a capacidade de decidir ou deliberar sobre o seu próprio estado, a sua própria ação. Uma emoção não depende da nossa vontade. A nossa consciência não entra nesta equação.
As emoções são imparáveis: quando a dor emocional se instala, não há nada que possamos fazer. Não conseguimos evitar o sofrimento que resulta das emoções.
A verdade, porém, é que uma boa parte do sofrimento humano não é deste tipo, sendo perfeitamente evitável.
Quando o sofrimento se manifesta já não como emoção (resposta relativamente automática e “natural” a um estímulo), mas antes como sentimento (perceção elaborada conscientemente na nossa mente), o sofrimento é insano. Não faz sentido. E podemos muito bem evitá-lo.
Enquanto as emoções emergem espontâneas e imparáveis de dentro de nós, os sentimentos instalam-se depois de “matutarmos nas coisas”, muitas vezes, como vimos, sem autorização da nossa vontade, dominada por pensamentos que irrompem na nossa mente.
Etimologicamente, senti-mento relaciona-se com sentir. Um sentimento é por natureza subjetivo, porque resulta do modo como sentimos as coisas, resulta da “leitura” e interpretação pessoal, subjetiva, que fazemos do mundo que nos rodeia e das situações que ele nos proporciona.
Nós, humanos, somos inevitavelmente “máquinas de interpretação”, seres que dependem (mais do que dos sentidos) do sentido que damos às coisas. Mas raramente nos lembramos disto: não sentimos o mundo como ele é, mas como ele se nos apresenta aos nossos sentidos. Porém, o modo como interpretamos os dados enviados pelos nossos sentidos depende do sentido que damos a esses dados.
Quando o sofrimento é conscientemente elaborado (e sabemos que isto acontece porque, geralmente, quanto mais pensamos, mais sofremos), ele resulta sempre de uma leitura e interpretação errónea (ou pouco clara) que o nosso “eu” faz da realidade ou das circunstâncias da nossa história de vida.
O sofrimento resulta da realidade subjetiva que nós próprios produzimos, das histórias que inventamos, dos filmes que fazemos, do modo como nos vemos a nós mesmos a desempenhar um certo papel naquilo que acreditamos ser a grande narrativa do mundo.
E quando assim é, a nossa “máquina de pensar” toma conta de nós, agarra no leme da nossa vida e faz-se passar por “nós”, podendo virar a nossa vida do avesso.
E qual é a solução?
Libertarmo-nos do nosso “eu”
A solução passa por renunciarmos, controladamente, a essa ficção, essa armadilha, chamada “eu”.
Esta operação de limpeza e libertação será tema para um outro tópico.

