Porque gostamos de respostas simples?

Porque é que, em geral, as pessoas preferem as respostas simples àquelas que são mais complexas, cheias de recantos e de hesitações, mesmo quando são estas últimas que conduzem ao conhecimento e nos colocam no caminho da verdade?

Em primeiro lugar, porque não estão para se chatear. As pessoas não gostam de perder tempo, querem seguir em frente, ir à sua vida.

Em segundo lugar, porque as respostas mais longas, mais complexas, repletas de hesitações, são dadas por aqueles que são habitualmente designados como intelectuais. E para a generalidade das pessoas os intelectuais são sobretudo isto: seres aborrecidos. Os intelectuais têm dúvidas e colocam questões. E as pessoas não têm paciência para analisar questões. As pessoas querem que as suas questões sejam resolvidas, não querem colocá-las em equação. Não estão para se incomodar a gastar energia com a indagação daquilo que poderá possivelmente ser a resposta a uma qualquer questão que tenham em mente. Até porque a atividade mental é uma das que gastam mais energia, embora raramente nos lembremos disso.

A verdade, porém, é esta: o cérebro, que tem cerca de um quilo e meio, representando apenas uma pequena percentagem do peso total do nosso corpo (na verdade, representa cerca de 2%), gasta no mínimo 20% da energia total que o nosso corpo consome diariamente. Proporcionalmente, gasta dez vezes mais que outra qualquer parte do nosso corpo. É um órgão muito exigente, portanto: gasta uma energia imensa.

Raramente nos lembramos disto, mas esta é uma boa razão para sermos mentalmente preguiçosos. Não podemos esquecer que somos um organismo complexo, apurado pela mãe Natureza ao longo de milhões de anos, uma empresa viva orientada para a máxima eficiência. Até porque foi essa eficiência que nos fez chegar até onde chegamos, depois desses milhões de anos de evolução.


Em terceiro lugar, as respostas simples fazem-nos facilmente acreditar que está tudo sob controlo, que nos faltava “apenas” aquele pedacinho de informação, aquele pormenor. E isso é um descanso.

Se nos dão uma resposta mais complexa, que abre mais dúvidas do que as que resolve, uma resposta em que nada é certo nem definitivo, ficamos atolados em nós mesmos. Sentimos que nada está controlado. E ligamos facilmente o nosso modo “Afinal em que ficamos?”. Não gostamos de paragens nem de hesitações, como não gostamos de interrogações ou dúvidas.

Mas há mais: as respostas complexas são rebeldes, põem frequentemente em causa as nossas ideias feitas. Obrigam-nos a rever e a engolir pressupostos e preconceitos. Fazem-nos tremer o chão. Uma chatice. Não queremos de modo nenhum pôr em causa a maior parte das nossas ideias, dos nossos pressupostos e preconceitos. Queremos apenas uma respostazinha. Que não ponha em causa nada de fundamental em nós. A última coisa que queremos é equacionar as nossas certezas ou admitir que podemos ter estado enganados uma boa parte da nossa vida. Quem quer trocar toda uma vida por uma qualquer verdade?
Afinal de contas, passamos todos esses anos da nossa vida gastando toneladas de energia na construção do nosso “eu” e da nossa identidade, na elaboração das nossas ideias e convicções. A troco de quê iríamos esbanjar esse tempo e essa energia a favor de uma qualquer verdade? Se essa verdade nos trouxesse um bitoque e uma garrafa de tinto, até poderíamos entender. Assim, não.

A verdade não é apenas difícil. A verdade dói. E o sofrimento é o primeiro sentimento que não apenas o ser humano mas todos os seres vivos querem evitar.

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